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ABANDONO.............12
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| Ó solidão! Solidão, pátria minha! Por tempo demais vivi selvagemente, em selvagens terras alheias, para não regressar a ti sem lágrimas! Agora apenas me ameaça com o dedo, como fazem as mães, agora sorri para mim, como sorriem as mães, agora apenas fala: “E quem foi aquele que um dia, como um vendaval, escapou tempestuosamente de mim? — — que partindo exclamou: por tempo demais fiquei junto à solidão, então desaprendi de calar! Isso — aprendeste agora? Ó Zaratustra, sei de tudo; e também que no meio de muitos homens estavas mais abandonado, único que és, do que jamais estiveste comigo! Uma coisa é o abandono, outra é a solidão. Isso — aprendeste agora! E que sempre serás, entre os homens, selvagem e alheio: — selvagem e alheio ainda quando te amem: pois antes de tudo eles querem ser poupados! Mas aqui estás contigo e em casa; aqui podes falar tudo e desabafar todas as razões; nada, aqui, se envergonha de sentimentos escondidos, empedernidos. Aqui todas as coisas vêm afagantes ao encontro da tua palavra, e te lisonjeiam: pois querem cavalgar no teu dorso. Em cada símbolo cavalgas aqui até cada verdade. De forma direita e direta podes falar aqui a todas as coisas: e, em verdade, aos seus ouvidos soa-lhes como um louvor que alguém fale com todas as coisas sem rodeios! Diferente, todavia, é ser abandonado. Pois ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando o teu pássaro gritou acima de ti, quando estavas na floresta, sem saber para onde ir, indeciso, próximo de um cadáver: — — quando falaste: que os meus animais me conduzam! Vi mais perigo entre os homens do que entre os animais: — Isso era abandono! E ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando estavas em tua ilha, uma fonte de vinho entre cântaros vazios, dando e dividindo, regalando e repartindo entre os sedentos: — até que finalmente eras o único sedento entre os bêbados e à noite lamentavas: ‘Não é mais venturoso receber do que dar? E ainda mais venturoso roubar do que receber?’ — Isso era abandono! E ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando chegou tua hora mais silenciosa e te arrastou para longe de ti mesmo, quando falou num malvado sussurro: ‘Fala e te despedaça!’ — — quando fez que te arrependesses de todo o teu esperar e silenciar e que esmorecesse tua humilde coragem: isso era abandono!” — Ó solidão! Solidão, pátria minha! Quão terna e bem-aventurada me fala a tua voz! Nós não interrogamos um ao outro, não reclamamos um ao outro, passamos, um ao outro aberto, por portas abertas. Pois contigo é tudo aberto e claro; e mesmo as horas correm aqui com pés mais leves. De fato, no escuro o tempo é mais pesado que na luz. Aqui se abrem para mim as palavras e arcas de palavras de todo o ser: todo o ser quer vir a ser palavra, todo vir-a-ser quer comigo aprender a falar. Lá embaixo, porém — lá toda fala é em vão! A melhor sabedoria, lá, é esquecer e passar ao largo: isso — aprendi eu agora! Quem quisesse tudo compreender nos homens, precisaria tudo acometer. Mas para isso tenho mãos demasiado limpas. Nem seu hálito me agrada inalar; ah, como vivi tanto tempo em meio a seu ruído e mau hálito? Oh, venturoso silêncio ao meu redor! Oh, puros odores ao meu redor! Oh, como este silêncio extrai ar puro do peito profundo! Oh, como escuta este venturoso silêncio! Mas lá embaixo — ali tudo fala e nada é ouvido. Alguém pode anunciar sua verdade com sinos: os merceeiros do mercado lhe cobrirão o som com o tilintar dos níqueis! Entre eles todos falam, e ninguém mais entende. Tudo vai por água abaixo, nada mais fica em poços profundos. Entre eles todos falam, e nada mais vinga e chega ao fim. Todos cacarejam, mas quem fica sentado em silêncio no ninho, para chocar os ovos? Entre eles todos falam, e tudo é estropiado com palavras. E aquilo que ontem ainda era duro demais para o tempo e seus dentes: hoje pende, roído e rasgado, das bocas dos homens de hoje. Entre eles todos falam, tudo é revelado. E o que um dia era segredo e reserva de almas profundas, hoje pertence aos trombeteiros das ruas e outras borboletas. Ó ser humano, singular criatura! Ruído em becos escuros! Agora te achas novamente detrás de mim: — meu maior perigo se acha detrás de mim! Poupar e compadecer sempre foi meu maior perigo — e todo ser humano quer ser poupado e compadecido. Com verdades contidas, com mãos de tolo e coração tolamente enamorado, e pródigo nas pequenas mentiras da compaixão: — assim sempre vivi entre os homens. Disfarçado me sentava entre eles, disposto a me desconhecer para melhor suportar a eles, e de bom grado me dizendo: “Tolo, não conheces os homens!”. Desaprende-se a conhecer os homens ao viver entre eles: há “fachada” em demasia em todos os homens — que têm a fazer, ali, olhos que veem longe, que desejam o longe? E, quando me desconheciam: eu, tolo, poupava-os mais do que a mim mesmo por isso — habituado à dureza comigo e muitas vezes vingando-me em mim mesmo por poupá-los. Picado por moscas venenosas e furado, como uma pedra, por muitas gotas de maldade, assim me sentava entre eles, ainda dizendo a mim mesmo: “Tudo pequeno é inocente de sua pequenez!”. Especialmente os que se chamam “os bons” percebi como as moscas mais venenosas: eles picam com toda a inocência, mentem com toda a inocência; como conseguiriam, em relação a mim — ser justos? Àquele que vive entre os bons a compaixão ensina a mentir. A compaixão torna bafiento o ar para todas as almas livres. Pois insondável é a estupidez dos bons. Ocultar a mim mesmo e a minha riqueza — isso aprendi lá embaixo: pois todos me pareceram ainda pobres de espírito. Essa foi a mentira de minha compaixão, o fato de que em cada um eu sabia, — de que em cada um via e cheirava o que lhe era espírito suficiente e o que já lhe era espírito demais! Seus rígidos sábios: eu os chamei sábios, não rígidos — assim aprendi a engolir palavras. Seus coveiros: eu os chamei pesquisadores e examinadores — assim aprendi a trocar palavras. Os coveiros cavam doenças para si. Sob velhos escombros descansam vapores ruins. Não se deve revolver o lodaçal. Deve-se viver nas montanhas. Com narinas venturosas respiro novamente a liberdade dos montes! Finalmente redimido se acha meu nariz do odor de seres humanos! Por agudos ventos titilada, como que por espumantes vinhos, minha alma espirra — espirra e brinda a si mesma: Saúde! Assim falou Zaratustra. | Zaratustra 1 O regresso 2 |
| Ó solidão! Solidão, pátria minha! Por tempo demais vivi selvagemente, em selvagens terras alheias, para não regressar a ti sem lágrimas! Agora apenas me ameaça com o dedo, como fazem as mães, agora sorri para mim, como sorriem as mães, agora apenas fala: “E quem foi aquele que um dia, como um vendaval, escapou tempestuosamente de mim? — — que partindo exclamou: por tempo demais fiquei junto à solidão, então desaprendi de calar! Isso — aprendeste agora? Ó Zaratustra, sei de tudo; e também que no meio de muitos homens estavas mais abandonado, único que és, do que jamais estiveste comigo! Uma coisa é o abandono, outra é a solidão. Isso — aprendeste agora! E que sempre serás, entre os homens, selvagem e alheio: — selvagem e alheio ainda quando te amem: pois antes de tudo eles querem ser poupados! Mas aqui estás contigo e em casa; aqui podes falar tudo e desabafar todas as razões; nada, aqui, se envergonha de sentimentos escondidos, empedernidos. Aqui todas as coisas vêm afagantes ao encontro da tua palavra, e te lisonjeiam: pois querem cavalgar no teu dorso. Em cada símbolo cavalgas aqui até cada verdade. De forma direita e direta podes falar aqui a todas as coisas: e, em verdade, aos seus ouvidos soa-lhes como um louvor que alguém fale com todas as coisas sem rodeios! Diferente, todavia, é ser abandonado. Pois ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando o teu pássaro gritou acima de ti, quando estavas na floresta, sem saber para onde ir, indeciso, próximo de um cadáver: — — quando falaste: que os meus animais me conduzam! Vi mais perigo entre os homens do que entre os animais: — Isso era abandono! E ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando estavas em tua ilha, uma fonte de vinho entre cântaros vazios, dando e dividindo, regalando e repartindo entre os sedentos: — até que finalmente eras o único sedento entre os bêbados e à noite lamentavas: ‘Não é mais venturoso receber do que dar? E ainda mais venturoso roubar do que receber?’ — Isso era abandono! E ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando chegou tua hora mais silenciosa e te arrastou para longe de ti mesmo, quando falou num malvado sussurro: ‘Fala e te despedaça!’ — — quando fez que te arrependesses de todo o teu esperar e silenciar e que esmorecesse tua humilde coragem: isso era abandono!” — Ó solidão! Solidão, pátria minha! Quão terna e bem-aventurada me fala a tua voz! Nós não interrogamos um ao outro, não reclamamos um ao outro, passamos, um ao outro aberto, por portas abertas. Pois contigo é tudo aberto e claro; e mesmo as horas correm aqui com pés mais leves. De fato, no escuro o tempo é mais pesado que na luz. Aqui se abrem para mim as palavras e arcas de palavras de todo o ser: todo o ser quer vir a ser palavra, todo vir-a-ser quer comigo aprender a falar. Lá embaixo, porém — lá toda fala é em vão! A melhor sabedoria, lá, é esquecer e passar ao largo: isso — aprendi eu agora! Quem quisesse tudo compreender nos homens, precisaria tudo acometer. Mas para isso tenho mãos demasiado limpas. Nem seu hálito me agrada inalar; ah, como vivi tanto tempo em meio a seu ruído e mau hálito? Oh, venturoso silêncio ao meu redor! Oh, puros odores ao meu redor! Oh, como este silêncio extrai ar puro do peito profundo! Oh, como escuta este venturoso silêncio! Mas lá embaixo — ali tudo fala e nada é ouvido. Alguém pode anunciar sua verdade com sinos: os merceeiros do mercado lhe cobrirão o som com o tilintar dos níqueis! Entre eles todos falam, e ninguém mais entende. Tudo vai por água abaixo, nada mais fica em poços profundos. Entre eles todos falam, e nada mais vinga e chega ao fim. Todos cacarejam, mas quem fica sentado em silêncio no ninho, para chocar os ovos? Entre eles todos falam, e tudo é estropiado com palavras. E aquilo que ontem ainda era duro demais para o tempo e seus dentes: hoje pende, roído e rasgado, das bocas dos homens de hoje. Entre eles todos falam, tudo é revelado. E o que um dia era segredo e reserva de almas profundas, hoje pertence aos trombeteiros das ruas e outras borboletas. Ó ser humano, singular criatura! Ruído em becos escuros! Agora te achas novamente detrás de mim: — meu maior perigo se acha detrás de mim! Poupar e compadecer sempre foi meu maior perigo — e todo ser humano quer ser poupado e compadecido. Com verdades contidas, com mãos de tolo e coração tolamente enamorado, e pródigo nas pequenas mentiras da compaixão: — assim sempre vivi entre os homens. Disfarçado me sentava entre eles, disposto a me desconhecer para melhor suportar a eles, e de bom grado me dizendo: “Tolo, não conheces os homens!”. Desaprende-se a conhecer os homens ao viver entre eles: há “fachada” em demasia em todos os homens — que têm a fazer, ali, olhos que veem longe, que desejam o longe? E, quando me desconheciam: eu, tolo, poupava-os mais do que a mim mesmo por isso — habituado à dureza comigo e muitas vezes vingando-me em mim mesmo por poupá-los. Picado por moscas venenosas e furado, como uma pedra, por muitas gotas de maldade, assim me sentava entre eles, ainda dizendo a mim mesmo: “Tudo pequeno é inocente de sua pequenez!”. Especialmente os que se chamam “os bons” percebi como as moscas mais venenosas: eles picam com toda a inocência, mentem com toda a inocência; como conseguiriam, em relação a mim — ser justos? Àquele que vive entre os bons a compaixão ensina a mentir. A compaixão torna bafiento o ar para todas as almas livres. Pois insondável é a estupidez dos bons. Ocultar a mim mesmo e a minha riqueza — isso aprendi lá embaixo: pois todos me pareceram ainda pobres de espírito. Essa foi a mentira de minha compaixão, o fato de que em cada um eu sabia, — de que em cada um via e cheirava o que lhe era espírito suficiente e o que já lhe era espírito demais! Seus rígidos sábios: eu os chamei sábios, não rígidos — assim aprendi a engolir palavras. Seus coveiros: eu os chamei pesquisadores e examinadores — assim aprendi a trocar palavras. Os coveiros cavam doenças para si. Sob velhos escombros descansam vapores ruins. Não se deve revolver o lodaçal. Deve-se viver nas montanhas. Com narinas venturosas respiro novamente a liberdade dos montes! Finalmente redimido se acha meu nariz do odor de seres humanos! Por agudos ventos titilada, como que por espumantes vinhos, minha alma espirra — espirra e brinda a si mesma: Saúde! Assim falou Zaratustra. | Zaratustra 1 O regresso 2 |
| Ó solidão! Solidão, pátria minha! Por tempo demais vivi selvagemente, em selvagens terras alheias, para não regressar a ti sem lágrimas! Agora apenas me ameaça com o dedo, como fazem as mães, agora sorri para mim, como sorriem as mães, agora apenas fala: “E quem foi aquele que um dia, como um vendaval, escapou tempestuosamente de mim? — — que partindo exclamou: por tempo demais fiquei junto à solidão, então desaprendi de calar! Isso — aprendeste agora? Ó Zaratustra, sei de tudo; e também que no meio de muitos homens estavas mais abandonado, único que és, do que jamais estiveste comigo! Uma coisa é o abandono, outra é a solidão. Isso — aprendeste agora! E que sempre serás, entre os homens, selvagem e alheio: — selvagem e alheio ainda quando te amem: pois antes de tudo eles querem ser poupados! Mas aqui estás contigo e em casa; aqui podes falar tudo e desabafar todas as razões; nada, aqui, se envergonha de sentimentos escondidos, empedernidos. Aqui todas as coisas vêm afagantes ao encontro da tua palavra, e te lisonjeiam: pois querem cavalgar no teu dorso. Em cada símbolo cavalgas aqui até cada verdade. De forma direita e direta podes falar aqui a todas as coisas: e, em verdade, aos seus ouvidos soa-lhes como um louvor que alguém fale com todas as coisas sem rodeios! Diferente, todavia, é ser abandonado. Pois ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando o teu pássaro gritou acima de ti, quando estavas na floresta, sem saber para onde ir, indeciso, próximo de um cadáver: — — quando falaste: que os meus animais me conduzam! Vi mais perigo entre os homens do que entre os animais: — Isso era abandono! E ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando estavas em tua ilha, uma fonte de vinho entre cântaros vazios, dando e dividindo, regalando e repartindo entre os sedentos: — até que finalmente eras o único sedento entre os bêbados e à noite lamentavas: ‘Não é mais venturoso receber do que dar? E ainda mais venturoso roubar do que receber?’ — Isso era abandono! E ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando chegou tua hora mais silenciosa e te arrastou para longe de ti mesmo, quando falou num malvado sussurro: ‘Fala e te despedaça!’ — — quando fez que te arrependesses de todo o teu esperar e silenciar e que esmorecesse tua humilde coragem: isso era abandono!” — Ó solidão! Solidão, pátria minha! Quão terna e bem-aventurada me fala a tua voz! Nós não interrogamos um ao outro, não reclamamos um ao outro, passamos, um ao outro aberto, por portas abertas. Pois contigo é tudo aberto e claro; e mesmo as horas correm aqui com pés mais leves. De fato, no escuro o tempo é mais pesado que na luz. Aqui se abrem para mim as palavras e arcas de palavras de todo o ser: todo o ser quer vir a ser palavra, todo vir-a-ser quer comigo aprender a falar. Lá embaixo, porém — lá toda fala é em vão! A melhor sabedoria, lá, é esquecer e passar ao largo: isso — aprendi eu agora! Quem quisesse tudo compreender nos homens, precisaria tudo acometer. Mas para isso tenho mãos demasiado limpas. Nem seu hálito me agrada inalar; ah, como vivi tanto tempo em meio a seu ruído e mau hálito? Oh, venturoso silêncio ao meu redor! Oh, puros odores ao meu redor! Oh, como este silêncio extrai ar puro do peito profundo! Oh, como escuta este venturoso silêncio! Mas lá embaixo — ali tudo fala e nada é ouvido. Alguém pode anunciar sua verdade com sinos: os merceeiros do mercado lhe cobrirão o som com o tilintar dos níqueis! Entre eles todos falam, e ninguém mais entende. Tudo vai por água abaixo, nada mais fica em poços profundos. Entre eles todos falam, e nada mais vinga e chega ao fim. Todos cacarejam, mas quem fica sentado em silêncio no ninho, para chocar os ovos? Entre eles todos falam, e tudo é estropiado com palavras. E aquilo que ontem ainda era duro demais para o tempo e seus dentes: hoje pende, roído e rasgado, das bocas dos homens de hoje. Entre eles todos falam, tudo é revelado. E o que um dia era segredo e reserva de almas profundas, hoje pertence aos trombeteiros das ruas e outras borboletas. Ó ser humano, singular criatura! Ruído em becos escuros! Agora te achas novamente detrás de mim: — meu maior perigo se acha detrás de mim! Poupar e compadecer sempre foi meu maior perigo — e todo ser humano quer ser poupado e compadecido. Com verdades contidas, com mãos de tolo e coração tolamente enamorado, e pródigo nas pequenas mentiras da compaixão: — assim sempre vivi entre os homens. Disfarçado me sentava entre eles, disposto a me desconhecer para melhor suportar a eles, e de bom grado me dizendo: “Tolo, não conheces os homens!”. Desaprende-se a conhecer os homens ao viver entre eles: há “fachada” em demasia em todos os homens — que têm a fazer, ali, olhos que veem longe, que desejam o longe? E, quando me desconheciam: eu, tolo, poupava-os mais do que a mim mesmo por isso — habituado à dureza comigo e muitas vezes vingando-me em mim mesmo por poupá-los. Picado por moscas venenosas e furado, como uma pedra, por muitas gotas de maldade, assim me sentava entre eles, ainda dizendo a mim mesmo: “Tudo pequeno é inocente de sua pequenez!”. Especialmente os que se chamam “os bons” percebi como as moscas mais venenosas: eles picam com toda a inocência, mentem com toda a inocência; como conseguiriam, em relação a mim — ser justos? Àquele que vive entre os bons a compaixão ensina a mentir. A compaixão torna bafiento o ar para todas as almas livres. Pois insondável é a estupidez dos bons. Ocultar a mim mesmo e a minha riqueza — isso aprendi lá embaixo: pois todos me pareceram ainda pobres de espírito. Essa foi a mentira de minha compaixão, o fato de que em cada um eu sabia, — de que em cada um via e cheirava o que lhe era espírito suficiente e o que já lhe era espírito demais! Seus rígidos sábios: eu os chamei sábios, não rígidos — assim aprendi a engolir palavras. Seus coveiros: eu os chamei pesquisadores e examinadores — assim aprendi a trocar palavras. Os coveiros cavam doenças para si. Sob velhos escombros descansam vapores ruins. Não se deve revolver o lodaçal. Deve-se viver nas montanhas. Com narinas venturosas respiro novamente a liberdade dos montes! Finalmente redimido se acha meu nariz do odor de seres humanos! Por agudos ventos titilada, como que por espumantes vinhos, minha alma espirra — espirra e brinda a si mesma: Saúde! Assim falou Zaratustra. | Zaratustra 1 O regresso 2 |
| Ó solidão! Solidão, pátria minha! Por tempo demais vivi selvagemente, em selvagens terras alheias, para não regressar a ti sem lágrimas! Agora apenas me ameaça com o dedo, como fazem as mães, agora sorri para mim, como sorriem as mães, agora apenas fala: “E quem foi aquele que um dia, como um vendaval, escapou tempestuosamente de mim? — — que partindo exclamou: por tempo demais fiquei junto à solidão, então desaprendi de calar! Isso — aprendeste agora? Ó Zaratustra, sei de tudo; e também que no meio de muitos homens estavas mais abandonado, único que és, do que jamais estiveste comigo! Uma coisa é o abandono, outra é a solidão. Isso — aprendeste agora! E que sempre serás, entre os homens, selvagem e alheio: — selvagem e alheio ainda quando te amem: pois antes de tudo eles querem ser poupados! Mas aqui estás contigo e em casa; aqui podes falar tudo e desabafar todas as razões; nada, aqui, se envergonha de sentimentos escondidos, empedernidos. Aqui todas as coisas vêm afagantes ao encontro da tua palavra, e te lisonjeiam: pois querem cavalgar no teu dorso. Em cada símbolo cavalgas aqui até cada verdade. De forma direita e direta podes falar aqui a todas as coisas: e, em verdade, aos seus ouvidos soa-lhes como um louvor que alguém fale com todas as coisas sem rodeios! Diferente, todavia, é ser abandonado. Pois ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando o teu pássaro gritou acima de ti, quando estavas na floresta, sem saber para onde ir, indeciso, próximo de um cadáver: — — quando falaste: que os meus animais me conduzam! Vi mais perigo entre os homens do que entre os animais: — Isso era abandono! E ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando estavas em tua ilha, uma fonte de vinho entre cântaros vazios, dando e dividindo, regalando e repartindo entre os sedentos: — até que finalmente eras o único sedento entre os bêbados e à noite lamentavas: ‘Não é mais venturoso receber do que dar? E ainda mais venturoso roubar do que receber?’ — Isso era abandono! E ainda te lembras, ó Zaratustra? Quando chegou tua hora mais silenciosa e te arrastou para longe de ti mesmo, quando falou num malvado sussurro: ‘Fala e te despedaça!’ — — quando fez que te arrependesses de todo o teu esperar e silenciar e que esmorecesse tua humilde coragem: isso era abandono!” — Ó solidão! Solidão, pátria minha! Quão terna e bem-aventurada me fala a tua voz! Nós não interrogamos um ao outro, não reclamamos um ao outro, passamos, um ao outro aberto, por portas abertas. Pois contigo é tudo aberto e claro; e mesmo as horas correm aqui com pés mais leves. De fato, no escuro o tempo é mais pesado que na luz. Aqui se abrem para mim as palavras e arcas de palavras de todo o ser: todo o ser quer vir a ser palavra, todo vir-a-ser quer comigo aprender a falar. Lá embaixo, porém — lá toda fala é em vão! A melhor sabedoria, lá, é esquecer e passar ao largo: isso — aprendi eu agora! Quem quisesse tudo compreender nos homens, precisaria tudo acometer. Mas para isso tenho mãos demasiado limpas. Nem seu hálito me agrada inalar; ah, como vivi tanto tempo em meio a seu ruído e mau hálito? Oh, venturoso silêncio ao meu redor! Oh, puros odores ao meu redor! Oh, como este silêncio extrai ar puro do peito profundo! Oh, como escuta este venturoso silêncio! Mas lá embaixo — ali tudo fala e nada é ouvido. Alguém pode anunciar sua verdade com sinos: os merceeiros do mercado lhe cobrirão o som com o tilintar dos níqueis! Entre eles todos falam, e ninguém mais entende. Tudo vai por água abaixo, nada mais fica em poços profundos. Entre eles todos falam, e nada mais vinga e chega ao fim. Todos cacarejam, mas quem fica sentado em silêncio no ninho, para chocar os ovos? Entre eles todos falam, e tudo é estropiado com palavras. E aquilo que ontem ainda era duro demais para o tempo e seus dentes: hoje pende, roído e rasgado, das bocas dos homens de hoje. Entre eles todos falam, tudo é revelado. E o que um dia era segredo e reserva de almas profundas, hoje pertence aos trombeteiros das ruas e outras borboletas. Ó ser humano, singular criatura! Ruído em becos escuros! Agora te achas novamente detrás de mim: — meu maior perigo se acha detrás de mim! Poupar e compadecer sempre foi meu maior perigo — e todo ser humano quer ser poupado e compadecido. Com verdades contidas, com mãos de tolo e coração tolamente enamorado, e pródigo nas pequenas mentiras da compaixão: — assim sempre vivi entre os homens. Disfarçado me sentava entre eles, disposto a me desconhecer para melhor suportar a eles, e de bom grado me dizendo: “Tolo, não conheces os homens!”. Desaprende-se a conhecer os homens ao viver entre eles: há “fachada” em demasia em todos os homens — que têm a fazer, ali, olhos que veem longe, que desejam o longe? E, quando me desconheciam: eu, tolo, poupava-os mais do que a mim mesmo por isso — habituado à dureza comigo e muitas vezes vingando-me em mim mesmo por poupá-los. Picado por moscas venenosas e furado, como uma pedra, por muitas gotas de maldade, assim me sentava entre eles, ainda dizendo a mim mesmo: “Tudo pequeno é inocente de sua pequenez!”. Especialmente os que se chamam “os bons” percebi como as moscas mais venenosas: eles picam com toda a inocência, mentem com toda a inocência; como conseguiriam, em relação a mim — ser justos? Àquele que vive entre os bons a compaixão ensina a mentir. A compaixão torna bafiento o ar para todas as almas livres. Pois insondável é a estupidez dos bons. Ocultar a mim mesmo e a minha riqueza — isso aprendi lá embaixo: pois todos me pareceram ainda pobres de espírito. Essa foi a mentira de minha compaixão, o fato de que em cada um eu sabia, — de que em cada um via e cheirava o que lhe era espírito suficiente e o que já lhe era espírito demais! Seus rígidos sábios: eu os chamei sábios, não rígidos — assim aprendi a engolir palavras. Seus coveiros: eu os chamei pesquisadores e examinadores — assim aprendi a trocar palavras. Os coveiros cavam doenças para si. Sob velhos escombros descansam vapores ruins. Não se deve revolver o lodaçal. Deve-se viver nas montanhas. Com narinas venturosas respiro novamente a liberdade dos montes! Finalmente redimido se acha meu nariz do odor de seres humanos! Por agudos ventos titilada, como que por espumantes vinhos, minha alma espirra — espirra e brinda a si mesma: Saúde! Assim falou Zaratustra. | Zaratustra 1 O regresso 2 |
| 41. É preciso testar a si mesmo, dar-se provas de ser destinado à independência e ao mando; e é preciso fazê-lo no tempo justo. Não se deve fugir às provas, embora sejam porventura o jogo mais perigoso que se pode jogar, e, em última instância, provas de que nós mesmos somos as testemunhas e os únicos juízes. Não se prender a uma pessoa: seja ela a mais querida — toda pessoa é uma prisão, e também um canto. Não se prender a uma pátria: seja ela a mais sofredora e necessitada — menos difícil é desatar de uma pátria vitoriosa o coração. Não se prender a uma compaixão: ainda que se dirija a homens superiores, cujo martírio e desamparo o acaso nos permitiu vislumbrar. Não se prender a uma ciência: ainda que nos tente com os mais preciosos achados, guardados especialmente para nós. Não se prender a seu próprio desligamento, ao voluptuoso abandono e afastamento do pássaro que ganha sempre mais altura, para ver mais e mais coisas abaixo de si: — o perigo daquele que voa. Não nos prendermos às próprias virtudes e nos tornarmos, enquanto todo, vítimas de uma nossa particularidade, por exemplo, de nossa “hospitalidade”: o perigo por excelência para as almas ricas e superiores, que tratam a si mesmas prodigamente, quase com indiferença, exercitando a liberalidade ao ponto de torná-la um vício. É preciso saber preservar-se : a mais dura prova de independência. | Além do Bem e do Mal II 41 12 |
| 198. Todas essas morais que se dirigem à pessoa individual, para promover sua “felicidade”, como se diz — que são elas, senão propostas de conduta, conforme o grau de periculosidade em que a pessoa vive consigo mesma; receitas contra suas paixões, suas inclinações boas e más, enquanto têm a vontade de poder e querem desempenhar papel de senhor; pequenas e grandes artimanhas e prudências, cheirando a velhos remédios caseiros e sabedoria de velhotas; todas elas barrocas e irracionais na forma — porque se dirigem a “todos”, porque generalizam onde não pode ser generalizado —, todas elas falando em tom incondicional, tomando a si de modo incondicional, todas elas condimentadas com mais de um grão de sal, mas apenas toleráveis, e por vezes até sedutoras, quando aprendem a soltar um cheiro excessivo e perigoso, “do outro mundo”: tudo isso tem pouco valor medido intelectualmente, está longe de ser “ciência”, menos ainda “sabedoria”; na verdade é, diga-se mais uma vez, diga-se três vezes, prudência, prudência, prudência, mesclada com estupidez, estupidez, estupidez — quer se trate da indiferença e frieza de estátua frente ao exuberante desatino dos afetos, que os estoicos prescreviam e aplicavam; ou do não-mais-rir e não-mais-chorar de Spinoza, a destruição dos afetos mediante análise e vivissecção, tão ingenuamente preconizada por ele; ou da redução dos afetos a uma mediania inócua, na qual seja permitido satisfazê-los: o aristotelismo da moral; ou mesmo da moral como fruição dos afetos numa intencional diluição e espiritualização pelo simbolismo da arte, em forma de música, digamos, ou de amor a Deus, e ao próximo em nome de Deus — pois na religião as paixões readquirem cidadania, contanto que…; quer se trate afinal do complacente e travesso abandono aos afetos, tal como Hafiz e Goethe ensinaram, aquele ousado afrouxamento das rédeas, a espiritual e carnal licentia morum [licença nos costumes] praticada excepcionalmente por velhos sábios excêntricos e bêbados, para os quais “já não há perigo”. Também isto para o capítulo “Moral como pusilanimidade”. | Além do Bem e do Mal V 198 12 |
| O milagre moral. — O cristianismo conhece, no âmbito moral, apenas o milagre: a súbita mudança de todos os juízos de valor, o súbito abandono de todos os hábitos, o súbito e irresistível pendor para novos objetos e pessoas. Ele concebe este fenômeno como obra divina e o chama de ato de renascimento, dando-lhe um valor único, incomparável — tudo o mais que se chama de moralidade, e que não tem relação com esse milagre, vem a ser indiferente para os cristãos, e talvez até objeto de medo, enquanto sentimento de bem-estar e de orgulho. No Novo Testamento está o cânone da virtude, do cumprimento da Lei: mas de forma tal que é o cânone da virtude impossível: ante um cânone assim, os que ainda se empenham moralmente devem aprender a sentir-se cada vez mais distantes de sua meta, e enfim lançar-se nos braços do misericordioso — apenas com esse remate o empenho moral de um cristão poderia ser considerado valioso, pressupondo, então, que sempre seja um empenho malsucedido, desprazeroso, melancólico; desse modo poderia também servir para ocasionar esse minuto extático em que o homem vivencia a “irrupção da graça” e o milagre moral: — mas necessária esta luta pela moralidade não é, pois não raro esse milagre se abate justamente sobre o pecador, quando ele, por assim dizer, floresce com a lepra do pecado; sim, o salto desde a mais profunda e radical pecaminosidade para o seu oposto parece mesmo algo mais fácil e, como prova evidente do milagre, também mais desejável. — Aquilo que, de resto, pode significar fisiologicamente uma tal virada repentina, irracional e irresistível, essa troca da mais profunda miséria pelo mais profundo bem-estar (talvez uma epilepsia mascarada?) — isso hão de ponderar os psiquiatras, que têm abundante ocasião de observar tais “milagres” (por exemplo, como mania assassina, ou mania suicida). O resultado relativamente “mais agradável”, no caso do cristão, não constitui diferença essencial. — | Aurora LIVRO I 87 12 |
| Em que medida devemos nos guardar dos compassivos. — A compaixão, na medida em que produz sofrimento — e aqui este será o nosso ponto de vista —, é uma fraqueza, como todo abandono a um afeto que prejudica. Ela faz crescer o sofrimento do mundo: indiretamente, aqui e ali, um sofrimento pode ser diminuído ou suprimido graças à compaixão, mas não se deve utilizar tais consequências ocasionais e, no conjunto, insignificantes, para justificar sua natureza, que, como disse, é prejudicial. Supondo que ela predominasse por um só dia, imediatamente pereceria a humanidade. Em si, a compaixão tem caráter tão bom como qualquer outro impulso: apenas quando é requerida e louvada — e isto acontece quando não se compreende o que ela tem de prejudicial, mas se descobre nela uma fonte de prazer — prende-se a ela a boa consciência, apenas então as pessoas dedicam-se a ela e não temem anunciá-la. Nas circunstâncias em que se compreende que é prejudicial, veem-na como fraqueza: ou — entre os gregos, por exemplo — como um doentio afeto periódico, ao qual se pode retirar a periculosidade com desafogos intencionais e temporários. — Quem fizer a experiência de, por algum tempo, ceder propositalmente às oportunidades de compaixão na vida prática e sempre manter no espírito a miséria toda que se apresenta à sua volta, ficará inevitavelmente doente e melancólico. Mas quem, como médico, quiser servir à humanidade em qualquer sentido, terá de ser muito cauteloso para com tal sentimento — ele o paralisa em todos os instantes decisivos, atando seu conhecimento e sua mão solícita e sutil. | Aurora LIVRO II 134 12 |
| Indicação para moralistas. — Nossos compositores fizeram uma grande descoberta: a feiúra interessante é igualmente possível em sua arte! E deste modo se atiram a esse franqueado oceano do feio, como que inebriados, e nunca foi tão fácil fazer música. Agora conquistou-se o escuro pano de fundo geral em que um raio de música bela, mesmo pequenino, ganha um brilho de ouro e de esmeralda; agora se ousa lançar o ouvinte no tumulto e na revolta e tirar-lhe o fôlego, para depois oferecer-lhe, num instante de abandono no repouso, um sentimento de felicidade que favorece a avaliação da música. Descobriu-se o contraste: somente agora os efeitos mais poderosos são possíveis — e baratos: ninguém mais pede boa música. Mas vocês devem apressar-se! Para toda arte resta apenas um curto espaço de tempo, depois que chega a essa descoberta. — Oh, se nossos pensadores tivessem ouvidos para escutar dentro da alma de nossos compositores, mediante sua música! Quanto tempo será preciso esperar, até que se tenha novamente uma oportunidade como esta de flagrar o homem interior numa má ação e na inocência desta ação! Pois os nossos compositores não suspeitam minimamente que colocam em música a sua própria história, a história do enfeamento da alma. Antes o bom compositor era quase obrigado a tornar-se um bom homem por causa de sua arte —. E agora! | Aurora LIVRO IV 239 12 |
| “De resto, me é odioso tudo o que simplesmente me instrui, sem aumentar ou imediatamente vivificar a minha atividade.” Estas são palavras de Goethe, com as quais, sempre com um expressamente corajoso ceterum censeo, podemos começar nossas considerações sobre o valor e a falta de valor da história. Nestas considerações, deve ser em verdade apresentado, porque instrução sem vivificação, o saber no qual a atividade adormece; a história tomada como um precioso supérfluo e luxo do conhecimento deveriam ser, segundo as palavras de Goethe, verdadeiramente odiosos para nós – na medida em que ainda nos falta o mais necessário e porque o supérfluo é o inimigo do necessário. Certamente precisamos da história, mas não como o passeante mimado no jardim do saber, por mais que este olhe certamente com desprezo para as nossas carências e penúrias rudes e sem graça. Isto significa: precisamos dela para a vida e para a ação, não para o abandono confortável da vida ou da ação ou mesmo para o embelezamento da vida egoísta e da ação covarde e ruim. Somente na medida em que a história serve à vida queremos servi-la. Mas há um grau que impulsiona a história e a avalia, onde a vida definha e se degrada: um fenômeno que, por mais doloroso que seja, se descobre justamente agora, em meio aos sintomas mais peculiares de nosso tempo. | Segunda Consideração Terceira dissertação 28 12 |
| Em muitos aspectos, também o asceta procura tornar leve a sua vida, geralmente por meio da completa subordinação a uma vontade alheia, ou a uma lei e um ritual abrangentes; mais ou menos como um brâmane não deixa nada à sua própria determinação e a cada minuto é guiado por um preceito sagrado. Esta subordinação é um meio poderoso para se tornar senhor de si mesmo; o indivíduo está ocupado, portanto não se entedia, e não experimenta qualquer estímulo da vontade e da paixão; após a ação realizada, não há sentimento de responsabilidade, nem a tortura do arrependimento. De uma vez por todas se renunciou à própria vontade, e isso é mais fácil do que renunciar ocasionalmente; assim como é mais fácil renunciar de todo a um desejo do que mantê-lo moderado. Se nos lembrarmos da posição atual do homem em relação ao Estado, achamos aí também que a obediência incondicional é mais cômoda que a condicionada. Logo, o santo facilita a própria vida pelo completo abandono da personalidade, e é um engano admirar nesse fenômeno o supremo heroísmo da moralidade. Em todo caso, é mais difícil afirmar a personalidade sem hesitação e sem obscuridade do que dela se libertar de tal modo; além disso, requer muito mais espírito e reflexão. | Humano demasiado humano Capítulo terceiro 139 12 |
| Da castidade feminina. — Há algo de surpreendente e monstruoso na educação das mulheres de classe elevada, talvez não exista nada de mais paradoxal. Todos se acham de acordo em educá-las na maior ignorância possível in eroticis [em questões eróticas] e inculcar-lhes na alma uma vergonha profunda ante essas coisas e uma grande impaciência e temor à simples menção delas. No fundo, somente nisso está em jogo a “honra” da mulher: o que mais não lhes é perdoado! Mas nisso devem elas permanecer ignorantes até em seu coração: não devem ter olhos, nem ouvidos, palavras ou pensamentos para este seu “mal”: saber, aqui, já é o mal. E depois, com um medonho raio, por assim dizer, são jogadas na realidade e no saber com o casamento — e por aquele que mais respeitam e amam! Têm de surpreender amor e vergonha em contradição, têm de sentir enlevo, abandono, obrigação, compaixão e horror ante a inesperada proximidade de deus e animal e o que mais for! — Com isso fazem, realmente, um nó na alma que não tem igual! Nem a compassiva curiosidade do mais sábio conhecedor dos homens bastaria para adivinhar como essa ou aquela mulher se orienta na solução deste enigma e no enigma desta solução, e que terríveis, amplas suspeitas devem se agitar na pobre alma que saiu dos eixos; sim, como a derradeira filosofia e ceticismo da mulher se ancora nesse ponto! — Após tudo isso, o mesmo profundo silêncio de antes: e, com frequência, um silêncio e um fechar de olhos para si mesma. — As mulheres jovens se empenham bastante em parecer superficiais e irrefletidas: as mais sutis entre elas simulam uma forma de insolência. — As mulheres facilmente veem os maridos como uma interrogação da sua honra e os filhos como uma apologia ou penitência — elas necessitam dos filhos e os desejam num sentido bem diferente daquele em que um homem os deseja. — Em suma, não é possível ser brando demais com as mulheres! | Gaia Ciência LIVRO I 71 12 |