Carneiro Leão - Aprendendo a Pensar I e II
 
 ABERRAÇÃO..........1
Esforçando-se por retirar o enorme entulho da metafísica, o Pensamento Essencial se mantém equidistante do cristianismo e de seu reverso, o ateísmo, a fim de poder fazer a experiência da dessacralização, o horizonte comum de todos os modernos. A passagem, que conduz do Deus impessoal dos filósofos ao Deus pessoal do cristianismo, esta passagem considerada à luz da Verdade esquecida do Sagrado é tão ilusória como a passagem, que leva do humanismo da substância ao humanismo do sujeito. Heidegger lembra que a categoria de pessoa não é menos carregada das potências metafísicas de dessacralização e desumanização do que as categorias de objeto e de coisa. O Deus, para cujo nome o Pensamento Essencial procura a devida linguagem, não é, portanto, nem o Deus de Hegel nem o de Kierkegaard. É o Deus Divino de Jesus Cristo, que justamente por não ser da metafísica não pode ser também nem o Deus da religião do Absoluto nem o Deus da religião do Paradoxo. Tanto num como no outro caso, o pensamento fica enredado numa aberração não pensada do Ser, a cuja rede se atrelam então as disputas históricas sobre os preâmbulos da fé, sobre o Deus dos geómetras e o Deus dos cristãos, sobre a desmitização, sobre a dialética e o retorno sublimado do reprimido.Aprendendo a pensar I: . Cristo e a Re-volução do Pensamento
 
 ABERTURA...........48
2. Sobre o Humanismo e a Essência da História: Dentro da originalidade de um Pensamento Essencial o homem não é um sujeito cuja “subjetividade” consiste em sujeitar às forças de suas pró-spectativas técnicas o ser dos entes, transformando-o na objetividade de simples objetos. No vigor de sua essencialização o homem é a locanda, em cujo espaço se desdobra a verdade dos entes. É no homem, como locanda do Ser, que os entes encontram lugar para serem o que são. Pois tanto a abertura da locanda como o desdobramento das possibilidades dos entes são instalados pela dinâmica de estruturação do Ser. O Ser é como Ser, estruturando a verdade dos entes na essencialização do homem, enquanto referência do Ser.Aprendendo a pensar I: . Sobre o Humanismo
O simples uso do candelabro não nos transmite as manifestações do mundo que seu ser instaura. É que seu emprego reside justamente em servir-se de suas relações efetivas, em usar seus serviços sem procurar realçar o sistema de referências que os possibilita. Usar um instrumento é obrigá-lo a desaparecer no uso que dele se faz. O bom candelabro é aquele de que não se sente a presença. Usar um instrumento é não se deter em seu modo de ser e sim passar através de sua utilidade à obtenção de sua finalidade. Para que o instrumento nos manifeste seu modo de ser, é necessário mudar de comportamento. É o que acontece na arte. A obra de arte nos abre e mostra o ser do candelabro como instrumento de iluminação. O modo de ser da arte é manifestar o mundo de tudo aquilo que é. É verdade que essa manifestação do ser se opera em toda atividade e em todo comportamento humano. Todavia, nem sempre é desenvolvida explicitamente. A ciência, por exemplo, é implicitamente uma manifestação do mundo, não obstante ela não se preocupa nem se atém à revelação do ser das coisas. Atenta ao que no real é determinação objetiva, universalizável e pragmática, a ciência não considera o mundo, a presença, a abertura do real. A graça das correntes, a seriedade do verde-ouro no candelabro, nenhum cálculo, nenhuma experimentação científica seria capaz de nos revelar. Assim a arte é um modo de verdade da existência enquanto instauradora de mundo. Essa instauração ela consegue pela obra. A obra é necessária. Para aparecer em seu mundo, as coisas devem ser subtraídas a nossos propósitos de utilização, elas se devem fazer inúteis. Em segundo lugar, devem ser integradas na dinâmica de um mundo. A inutilização das coisas não é contemplação. É uma integração no sistema de coordenadas de referência e apoio. A obra de arte é uma operação.Aprendendo a pensar I: . Existencialismo e Literatura
É quase irresistível a tentação de se perguntar: ausência de quê? — É. Na clareira da objetividade, toda ausência é sempre ausência de alguma coisa, de um objeto. Ora, a Linguagem poética, enquanto o vigor da ausência, enquanto nos presenteia com a presença da ausência, é somente abertura da espera de nada. O poetar do poeta se concentra e recolhe na pura liberdade da espera de nada. Ser poeta é se deixar fazer todo ressonância à música inaudita do Ser, perfeita transparência à luz invisível do Nada, pura sensibilidade à vigência do inefável, plena liberdade para a desestruturação das estruturas, inteira disponibilidade para o advento à língua do mistério do Silêncio. Pois a Linguagem vige e vigora aqui neste mistério do Silêncio que, enquanto se retrai como presença, nos presenteia com a estrutura de língua e discurso.Aprendendo a pensar I: . A Poesia e a Linguagem
Heráclito: Mas não é por não ter o que mudar que a distância não pode ser nem mutável nem imutável. O que constitui a di-stância como di-stância, não se dá ao nível da presença ou ausência de elementos ou conteúdos. Se assim não fosse, não passaria de horizonte. Seria um horizonte vazio. Por isso pode-se dizer também: justamente por não ter o que mudar, é que a di-stância pode ser tanto mutável como imutável. Vazio, não ter o que mudar, não poder ser nem mutável nem imutável ou poder ser tanto mutável como imutável pertencem às vigências de representação do horizonte. São funções, cujo movimento ainda depende e se prende à estância, embora procurando transcendê-la e superá-la de modo privativo. A pressuposição de todas elas é de que o dis- da distância está fora da estância, como se fosse possível um fora sem nenhuma modalidade de estar. Neste sentido as funções da estância, tanto as de dentro como as de fora, não repousam livremente no silêncio evocado pelo dis-. Não falam da estância a partir do dis-. Pretendem falar o dis- a partir da estância. // Diana: Provindo do silêncio da distância, a visão tece o navio no panorama de um horizonte de acordo com uma perspectiva determinada e determinante. Assim, quando, girando nos calcanhares, per-corremos todas as perspectivas, recebemos de cada uma outro horizonte com novo panorama. A visibilidade, enquanto totalidade do visível, é o conjunto de todas as perspectivas. Esta visibilidade nunca se pode tornar panorama de nenhuma visão. É que as perspectivas não se dão em conjunto mas apenas sucessivamente. Na periferia de qualquer visão, vemos sempre o anúncio indeterminado de outra perspectiva, acenando-se com novo panorama. Todo campo visual se apresenta como setor de uma abertura maior. É o olho edipiano da visão.Aprendendo a pensar I: . Diana e Heráclito
Heráclito: Não é edipiano, portanto, o olho que per-cebe os limites da visão em tudo que se vê. Um limite, que se per-cebe, já não prende, liberta. Não é só clausura. É também uma abertura. Numa estória antiga sem tempo, o Não-Saber visitou o Saber com a pergunta: “O que é Nada?” — O Saber respondeu de pronto: “Nada é não ser!” Mas o Não-Saber não se satisfez e insistiu: “Neste caso, se Nada for mesmo Nada, não é Nada, é ser. Para ser não ser, tem que ser e, sendo, já não é não ser!” Ao Saber ocorreu logo o paradoxo do mentiroso e quis sair-se com a doutrina das suposições, a teoria dos tipos e a lógica do discurso. Mas tudo isso lhe pareceu corresponder mais ao olho edipiano do que responder à pergunta do Não-Saber. Por isso se pôs a perguntar por toda parte: “é ou não é?” — Invocado por não obter resposta, apurou os ouvidos, mas tudo era silêncio. Acendeu os olhos mas tudo era escuridão. Estendeu as mãos mas tudo era vazio. Abriu a boca, nenhum sabor. Respirou o ar, nenhum odor. Já grilado ia desistir quando de repente gritou: “então é isso! Mas é o máximo!” — Procurou o Não-Saber e disse: “Não posso saber o que é o Nada mas posso saber que não sei. Se sei que não sei, não estou vencido. Ainda tenho o saber de meu não-saber. O auge da sabedoria não é o não-saber do saber mas o saber do não-saber”. Diante de toda esta euforia, o Não-Saber comentou apenas: “Com tanto poder, o Saber só não pode não saber que não sabe o que é Nada”! / Diana: Olhando o céu e o mar até o horizonte, não vemos apenas um panorama numa perspectiva determinada e determinante. Em tudo, que aí vemos, nós nos per-cebemos numa dada posição. É que horizonte, panorama e perspectiva se coordenam e referem à posição que ocupamos. De seu sistema de referência e coordenadas, a mesma paisagem se oferece a todos que tomarem a mesma posição. Mesmo, no entanto, não significa igual. Significa idêntico nas vicissitudes de personalização diferentes. Com as mudanças de mira e ângulo de visão, de horizonte e perspectiva não se altera o campo de visibilidade proporcionado pela posição. A solidez e estabilidade de uma posição não dependem nem da perspectiva nem do horizonte nem do panorama. Dependem da abertura que, possibilitando perspectivas, dá acesso à visibilidade de horizonte e panorama. Por isso só nos é acessível o que se nos pro-sta aberto pela abertura. Só temos acesso àquilo para o que estamos abertos.Aprendendo a pensar I: . Diana e Heráclito
Heráclito: Não é edipiano, portanto, o olho que per-cebe os limites da visão em tudo que se vê. Um limite, que se per-cebe, já não prende, liberta. Não é só clausura. É também uma abertura. Numa estória antiga sem tempo, o Não-Saber visitou o Saber com a pergunta: “O que é Nada?” — O Saber respondeu de pronto: “Nada é não ser!” Mas o Não-Saber não se satisfez e insistiu: “Neste caso, se Nada for mesmo Nada, não é Nada, é ser. Para ser não ser, tem que ser e, sendo, já não é não ser!” Ao Saber ocorreu logo o paradoxo do mentiroso e quis sair-se com a doutrina das suposições, a teoria dos tipos e a lógica do discurso. Mas tudo isso lhe pareceu corresponder mais ao olho edipiano do que responder à pergunta do Não-Saber. Por isso se pôs a perguntar por toda parte: “é ou não é?” — Invocado por não obter resposta, apurou os ouvidos, mas tudo era silêncio. Acendeu os olhos mas tudo era escuridão. Estendeu as mãos mas tudo era vazio. Abriu a boca, nenhum sabor. Respirou o ar, nenhum odor. Já grilado ia desistir quando de repente gritou: “então é isso! Mas é o máximo!” — Procurou o Não-Saber e disse: “Não posso saber o que é o Nada mas posso saber que não sei. Se sei que não sei, não estou vencido. Ainda tenho o saber de meu não-saber. O auge da sabedoria não é o não-saber do saber mas o saber do não-saber”. Diante de toda esta euforia, o Não-Saber comentou apenas: “Com tanto poder, o Saber só não pode não saber que não sabe o que é Nada”! / Diana: Olhando o céu e o mar até o horizonte, não vemos apenas um panorama numa perspectiva determinada e determinante. Em tudo, que aí vemos, nós nos per-cebemos numa dada posição. É que horizonte, panorama e perspectiva se coordenam e referem à posição que ocupamos. De seu sistema de referência e coordenadas, a mesma paisagem se oferece a todos que tomarem a mesma posição. Mesmo, no entanto, não significa igual. Significa idêntico nas vicissitudes de personalização diferentes. Com as mudanças de mira e ângulo de visão, de horizonte e perspectiva não se altera o campo de visibilidade proporcionado pela posição. A solidez e estabilidade de uma posição não dependem nem da perspectiva nem do horizonte nem do panorama. Dependem da abertura que, possibilitando perspectivas, dá acesso à visibilidade de horizonte e panorama. Por isso só nos é acessível o que se nos pro-sta aberto pela abertura. Só temos acesso àquilo para o que estamos abertos.Aprendendo a pensar I: . Diana e Heráclito
Heráclito: Não é edipiano, portanto, o olho que per-cebe os limites da visão em tudo que se vê. Um limite, que se per-cebe, já não prende, liberta. Não é só clausura. É também uma abertura. Numa estória antiga sem tempo, o Não-Saber visitou o Saber com a pergunta: “O que é Nada?” — O Saber respondeu de pronto: “Nada é não ser!” Mas o Não-Saber não se satisfez e insistiu: “Neste caso, se Nada for mesmo Nada, não é Nada, é ser. Para ser não ser, tem que ser e, sendo, já não é não ser!” Ao Saber ocorreu logo o paradoxo do mentiroso e quis sair-se com a doutrina das suposições, a teoria dos tipos e a lógica do discurso. Mas tudo isso lhe pareceu corresponder mais ao olho edipiano do que responder à pergunta do Não-Saber. Por isso se pôs a perguntar por toda parte: “é ou não é?” — Invocado por não obter resposta, apurou os ouvidos, mas tudo era silêncio. Acendeu os olhos mas tudo era escuridão. Estendeu as mãos mas tudo era vazio. Abriu a boca, nenhum sabor. Respirou o ar, nenhum odor. Já grilado ia desistir quando de repente gritou: “então é isso! Mas é o máximo!” — Procurou o Não-Saber e disse: “Não posso saber o que é o Nada mas posso saber que não sei. Se sei que não sei, não estou vencido. Ainda tenho o saber de meu não-saber. O auge da sabedoria não é o não-saber do saber mas o saber do não-saber”. Diante de toda esta euforia, o Não-Saber comentou apenas: “Com tanto poder, o Saber só não pode não saber que não sabe o que é Nada”! / Diana: Olhando o céu e o mar até o horizonte, não vemos apenas um panorama numa perspectiva determinada e determinante. Em tudo, que aí vemos, nós nos per-cebemos numa dada posição. É que horizonte, panorama e perspectiva se coordenam e referem à posição que ocupamos. De seu sistema de referência e coordenadas, a mesma paisagem se oferece a todos que tomarem a mesma posição. Mesmo, no entanto, não significa igual. Significa idêntico nas vicissitudes de personalização diferentes. Com as mudanças de mira e ângulo de visão, de horizonte e perspectiva não se altera o campo de visibilidade proporcionado pela posição. A solidez e estabilidade de uma posição não dependem nem da perspectiva nem do horizonte nem do panorama. Dependem da abertura que, possibilitando perspectivas, dá acesso à visibilidade de horizonte e panorama. Por isso só nos é acessível o que se nos pro-sta aberto pela abertura. Só temos acesso àquilo para o que estamos abertos.Aprendendo a pensar I: . Diana e Heráclito
Heráclito: A abertura não nos abre apenas o acessível. Também o acesso ao inacessível, como tal, nos é facultado pela abertura, que se exerce na própria diferenciação de aberto e fechado, de acessível e inacessível. Abertura não é assim uma coisa que se pudesse fazer ou encontrar entre outras coisas. Abertura só se dá no movimento bruxuleante de, abrindo, vedar e, vedando, abrir passagem. Neste movimento é que somos presenteados com a verdade de nossa finitude. Pois a in-verdade pertence essencial e constitutivamente à verdade. Estando sempre numa configuração de verdade, estamos também numa configuração de in-verdade. Esta tensão é o que evoca a provocação da palavra grega alétheia. Pois lanthano significa cobrir e velar, manter-se encoberto e ficar velado. Lethe é o nome de uma torrente no Hades, cujas águas encobrem a vida e velam as vivências dos mortos. É também o nome do esquecimento, cujo verbo, usado na forma medial de lantháñomai, quer dizer propriamente: se me encobre para mim mesmo, eu fico encoberto para mim de tal sorte que o eu, o me e o para mim resultam e nascem do próprio movimento de encobrir. Sendo profundamente reflexiva, a língua grega, ao falar, é atraída pelo vazio que deixa ecoar nas palavras o retraimento da Linguagem. / Diana: Somente neste vazio poderiam medrar o mito e a música, a poesia e o pensamento, o teatro e os jogos, a pintura e a escultura, a democracia e a tirania, a filosofia e a ciência em seu vigor originariamente grego. O mais provocante nesta experiência nasciva da alétheia não é apenas a riqueza inesgotável de sua fulguração em palavras e em mármore mas sobretudo a serenidade madura de sua vigência tanto na aurora como ocaso de sua jovialidade. É esse vigor originário que Hölderlin procura evocar com o título Oriente e Oriental, quando, no poema, Griechenland, A Grécia, chama os gregos de Oriente do Ocidente.Aprendendo a pensar I: . Diana e Heráclito
Heráclito: A abertura não nos abre apenas o acessível. Também o acesso ao inacessível, como tal, nos é facultado pela abertura, que se exerce na própria diferenciação de aberto e fechado, de acessível e inacessível. Abertura não é assim uma coisa que se pudesse fazer ou encontrar entre outras coisas. Abertura só se dá no movimento bruxuleante de, abrindo, vedar e, vedando, abrir passagem. Neste movimento é que somos presenteados com a verdade de nossa finitude. Pois a in-verdade pertence essencial e constitutivamente à verdade. Estando sempre numa configuração de verdade, estamos também numa configuração de in-verdade. Esta tensão é o que evoca a provocação da palavra grega alétheia. Pois lanthano significa cobrir e velar, manter-se encoberto e ficar velado. Lethe é o nome de uma torrente no Hades, cujas águas encobrem a vida e velam as vivências dos mortos. É também o nome do esquecimento, cujo verbo, usado na forma medial de lantháñomai, quer dizer propriamente: se me encobre para mim mesmo, eu fico encoberto para mim de tal sorte que o eu, o me e o para mim resultam e nascem do próprio movimento de encobrir. Sendo profundamente reflexiva, a língua grega, ao falar, é atraída pelo vazio que deixa ecoar nas palavras o retraimento da Linguagem. / Diana: Somente neste vazio poderiam medrar o mito e a música, a poesia e o pensamento, o teatro e os jogos, a pintura e a escultura, a democracia e a tirania, a filosofia e a ciência em seu vigor originariamente grego. O mais provocante nesta experiência nasciva da alétheia não é apenas a riqueza inesgotável de sua fulguração em palavras e em mármore mas sobretudo a serenidade madura de sua vigência tanto na aurora como ocaso de sua jovialidade. É esse vigor originário que Hölderlin procura evocar com o título Oriente e Oriental, quando, no poema, Griechenland, A Grécia, chama os gregos de Oriente do Ocidente.Aprendendo a pensar I: . Diana e Heráclito
Heráclito: A abertura não nos abre apenas o acessível. Também o acesso ao inacessível, como tal, nos é facultado pela abertura, que se exerce na própria diferenciação de aberto e fechado, de acessível e inacessível. Abertura não é assim uma coisa que se pudesse fazer ou encontrar entre outras coisas. Abertura só se dá no movimento bruxuleante de, abrindo, vedar e, vedando, abrir passagem. Neste movimento é que somos presenteados com a verdade de nossa finitude. Pois a in-verdade pertence essencial e constitutivamente à verdade. Estando sempre numa configuração de verdade, estamos também numa configuração de in-verdade. Esta tensão é o que evoca a provocação da palavra grega alétheia. Pois lanthano significa cobrir e velar, manter-se encoberto e ficar velado. Lethe é o nome de uma torrente no Hades, cujas águas encobrem a vida e velam as vivências dos mortos. É também o nome do esquecimento, cujo verbo, usado na forma medial de lantháñomai, quer dizer propriamente: se me encobre para mim mesmo, eu fico encoberto para mim de tal sorte que o eu, o me e o para mim resultam e nascem do próprio movimento de encobrir. Sendo profundamente reflexiva, a língua grega, ao falar, é atraída pelo vazio que deixa ecoar nas palavras o retraimento da Linguagem. / Diana: Somente neste vazio poderiam medrar o mito e a música, a poesia e o pensamento, o teatro e os jogos, a pintura e a escultura, a democracia e a tirania, a filosofia e a ciência em seu vigor originariamente grego. O mais provocante nesta experiência nasciva da alétheia não é apenas a riqueza inesgotável de sua fulguração em palavras e em mármore mas sobretudo a serenidade madura de sua vigência tanto na aurora como ocaso de sua jovialidade. É esse vigor originário que Hölderlin procura evocar com o título Oriente e Oriental, quando, no poema, Griechenland, A Grécia, chama os gregos de Oriente do Ocidente.Aprendendo a pensar I: . Diana e Heráclito
Heráclito: A abertura não nos abre apenas o acessível. Também o acesso ao inacessível, como tal, nos é facultado pela abertura, que se exerce na própria diferenciação de aberto e fechado, de acessível e inacessível. Abertura não é assim uma coisa que se pudesse fazer ou encontrar entre outras coisas. Abertura só se dá no movimento bruxuleante de, abrindo, vedar e, vedando, abrir passagem. Neste movimento é que somos presenteados com a verdade de nossa finitude. Pois a in-verdade pertence essencial e constitutivamente à verdade. Estando sempre numa configuração de verdade, estamos também numa configuração de in-verdade. Esta tensão é o que evoca a provocação da palavra grega alétheia. Pois lanthano significa cobrir e velar, manter-se encoberto e ficar velado. Lethe é o nome de uma torrente no Hades, cujas águas encobrem a vida e velam as vivências dos mortos. É também o nome do esquecimento, cujo verbo, usado na forma medial de lantháñomai, quer dizer propriamente: se me encobre para mim mesmo, eu fico encoberto para mim de tal sorte que o eu, o me e o para mim resultam e nascem do próprio movimento de encobrir. Sendo profundamente reflexiva, a língua grega, ao falar, é atraída pelo vazio que deixa ecoar nas palavras o retraimento da Linguagem. / Diana: Somente neste vazio poderiam medrar o mito e a música, a poesia e o pensamento, o teatro e os jogos, a pintura e a escultura, a democracia e a tirania, a filosofia e a ciência em seu vigor originariamente grego. O mais provocante nesta experiência nasciva da alétheia não é apenas a riqueza inesgotável de sua fulguração em palavras e em mármore mas sobretudo a serenidade madura de sua vigência tanto na aurora como ocaso de sua jovialidade. É esse vigor originário que Hölderlin procura evocar com o título Oriente e Oriental, quando, no poema, Griechenland, A Grécia, chama os gregos de Oriente do Ocidente.Aprendendo a pensar I: . Diana e Heráclito
Segundo o texto, três foram os efeitos: a abertura dos olhos, o saber do bem e do mal, a consciência da nudez. Curioso é ser o primeiro efeito o reconhecimento da nudez. E mais curioso ainda, que, de acordo com o juízo do próprio Deus, pela consciência da nudez o homem se tenha feito como Deus. Ao tomar consciência de sua nudez, os homens não apenas constatam um fato. Eles a escondem com folhas de figueira. O homem se envergonha de sua nudez. E não se trata de uma falsa vergonha, pois Deus a ratifica, vestindo-o com roupas de pele. Segundo o juízo de Deus, o homem que reconhece a sua nudez necessita cobri-la. É, ainda, a vergonha da nudez, e não o medo do castigo, que leva o homem a esconder-se da presença de Deus. A vergonha é assim a chave para a compreensão da hominização do homem pela transcendência do espírito.Aprendendo a pensar I: . A Hermenêutica do Mito
11. Autoridade supõe interioridade. Mas interioridade não diz simples interior nem mero estar dentro em oposição a estar fora, seja de si ou de outro. As pedras possuem interior e estão ao lado de outras coisas, junto com animais, plantas e homens no mundo. E no entanto não são interioridade. É que com a pedra os sintagmas, “em”, “ao lado de”, “junto a”, “com”, exprimem mera relação transitiva entre coisas, enquanto interioridade, incluindo relacionamento com a totalidade, exige, como condição de sua possibilidade, o Nada do Mistério. Interioridade é a abertura para a totalidade de todas as diferenças sem perda de unidade. É que esta abertura se abre na irrupção do horizonte de diferenciação próprio da identidade. Por isso só o homem é interioridade.Aprendendo a pensar I: . Poder e Autoridade no Cristianismo
11. Autoridade supõe interioridade. Mas interioridade não diz simples interior nem mero estar dentro em oposição a estar fora, seja de si ou de outro. As pedras possuem interior e estão ao lado de outras coisas, junto com animais, plantas e homens no mundo. E no entanto não são interioridade. É que com a pedra os sintagmas, “em”, “ao lado de”, “junto a”, “com”, exprimem mera relação transitiva entre coisas, enquanto interioridade, incluindo relacionamento com a totalidade, exige, como condição de sua possibilidade, o Nada do Mistério. Interioridade é a abertura para a totalidade de todas as diferenças sem perda de unidade. É que esta abertura se abre na irrupção do horizonte de diferenciação próprio da identidade. Por isso só o homem é interioridade.Aprendendo a pensar I: . Poder e Autoridade no Cristianismo
Ser homem é deixar-se abrir pelo diferir da identidade em espaços de encontro com o Nada do Mistério. Nesta abertura lhe advém a liberdade da verdade; a liberdade de deixar encontrarem-se as diferenças de todos os modos de ser. É o que se dá em toda atitude Essencial que reconduz o homem até a Linguagem de sua humanidade. Assim na profundidade do viver, na presença da morte, na transcendência do Eros, na convivência pessoal, na experiência da fé, na criação artística, no pensamento radical irrompe-lhe o Nada do Mistério de tal sorte que nesta irrupção e por ela todos os modos de ser chegam a desabrochar na interioridade daquilo que são e tal como são. É na irrupção desta interioridade que os seres são enviados à viagem da identidade de suas diferenças.Aprendendo a pensar I: . Poder e Autoridade no Cristianismo
A interioridade, de que necessita a autoridade, reside assim na abertura para as diferenças, aberta pelo Nada do Mistério. Pois dizer que o homem é interioridade equivale a dizer que ato homem é dado pelo Mistério encontrar-se consigo e com os outros na abertura do Mistério.Aprendendo a pensar I: . Poder e Autoridade no Cristianismo
A interioridade, de que necessita a autoridade, reside assim na abertura para as diferenças, aberta pelo Nada do Mistério. Pois dizer que o homem é interioridade equivale a dizer que ato homem é dado pelo Mistério encontrar-se consigo e com os outros na abertura do Mistério.Aprendendo a pensar I: . Poder e Autoridade no Cristianismo
É que a popularidade do povo já é desde sempre abertura para a poesia e o mistério, para o religioso e divino. E quando o espírito está franqueado pela liberdade, não importam grandeza e tamanho, valor ou poder. No talo de capim, na pedra no meio do caminho, na força do furacão, na seca da estiagem, no calor do sol, nas águas da cheia, na violência da exploração, no terror das guerras, na poluição do ambiente, em tudo opera um mistério que transcende sentimentos e tensões humanos e por isso mesmo pode nos levar ao reino das definições e diferenças, elevando-nos acima de qualquer fim e de todo limite, até o país das maravilhas, onde a admiração faz de cada vez a primeira vez!Aprendendo a pensar I: . A Propósito do Cristianismo Popular
Trata-se de uma caminhada que não acontece somente dentro do homem, mas também diante dos homens. Â abertura para Deus nas realizações é pública por comprometer e mobilizar todos os homens. Qualquer conquista de um homem se edifica numa comunhão de ser e ter, embora seja sempre uma comunhão fraturada e por isso mesmo exposta continuamente aos avanços do ter sobre as fissuras do ser. É a experiência que S. Agostinho nos traz nas advertências contra a curiosidade e o sensacionalismo: “Que tenho eu a ver com os homens, para que me ouçam as Confissões, como se houvessem de me curar as minhas enfermidades? Que gente curiosa para conhecer a vida alheia e indolente para corrigir a própria! por que pretendem que lhes declare quem sou, se não desejam também ouvir de Vós quem eles são? Ouvindo-me falar de mim, como hão de saber que lhes declaro a verdade, se ninguém sabe o que se passa num homem, a não ser o espírito que nele habita?” (X,3).Aprendendo a pensar II: As Confissões de Sto. Agostinho: Uma caminhada da libertação
Encaminhando-nos na caminhada da libertação, as Confissões nos preparam para um relacionamento livre com as realizações que somos e não temos, como também com as realizações que temos e não somos. Ora, livre é o relacionamento que abre nosso modo de ser para a vigência e expõe nossa existência ao vigor da verdade. É na correspondência a esta abertura, é dispondo-nos a esta exposição que haveremos de experimentar os limites em que se dá e viceja a essência da liberdade na história dè nossas libertações.Aprendendo a pensar II: As Confissões de Sto. Agostinho: Uma caminhada da libertação
za-o se forma do radical za. Que radical é este? É um radical indo-europeu. No grego, resulta materialmente da articulação de uma consoante dupla zeta (= d + s) com a vogal alpha. Esta resposta é tão espirituosa e significativa quanto dizer que a palavra NADA, escrita num quadro negro, é formada pelos rastilhos do giz branco. Só vamos compreender a experiência originária concentrada neste radical a partir do sentido comunitário que se joga nas palavras por ele formadas. O grego conhece uma série de tais palavras — za-theos, za-pyros, za-menes, za-es, za-trephes, za-phoros. Em suas poesias, Píndaro, joga com o sentido za-theos e za-menes. A semântica clássica entende za como um prefixo de aumento e intensidade. E, por isso, nos grandes dicionários de grego za-theos significa muito divino, muito santo, e za-menes, muito violento, muito forte, muito furioso. O entendimento de intensificação é, sem dúvida, correto mas mesquinho, por ser apenas instrumental e mecânico. Não é um entendimento revelador, por passar à margem da experiência criadora da linguagem na poesia e no pensamento. Fica de fora todo o vigor de realidade em cuja força o dizer originário é levado a instaurar possibilidades históricas de desdobramentos e transformações. É que as palavras intensificadas por za se inserem, pelo discurso de essência, no nível de vigência da própria realidade. Píndaro chama lugares, regiões, montanhas ou margens de rio de za-theos, quando quer remeter a uma experiência do extraordinário. É aí que o mistério da realidade aparece, como tal, e se deixa ver como a realidade nas realizações. É o que os gregos entendiam e chamavam de theoi. Por isso são lugares especialmente sagrados aqueles, em cuja abertura se dão e oferecem aparições, isto é, em que os montes, as regiões, as margens emergem em todo o vigor de seu ser e aparecer incontroláveis. za-menes, muito furioso, muito violento, diz Píndaro da tempestade, que se concentra toda no furor e na força de sua irrupção. Tó menos é a fúria, o furacão, a força indomável de uma explosão. Tó menos se diz do sol na força de sua irradiação de luz e calor. Mas se diz também, em Homero, do “vigor originário” da mente: psyche te menos te.Aprendendo a pensar II: Uma leitura órfica de uma sentença grega
Para e na experiência dos gregos, portanto, za-o diz a pura explosão da realidade numa variedade de modos de surgir e formas de aparecer das realizações do real, por exemplo, no desabrochar dos brotos na primavera. Não é por acaso que a raiz za se liga a radicais que ora denotam movimentos de irradiação, irrupção, implosão como theos, menos, aema, ora designam processos de crescer, brilhar, expandir-se, como pyr, phos, phora. Assim, za-o diz emergir e surgir para desabrochar, abrir-se para a abertura das evoluções. É esta experiência radical de vida e viver que levou os poetas a encontrar a essência da vida e o vigor de viver no abrir-se e expor-se à luz do sol. Homero nos diz, com uma simplicidade radical: zen kai oran phaos elioio — “viver, isto é, abrir-se e ver a luz do sol”.Aprendendo a pensar II: Uma leitura órfica de uma sentença grega
Agora talvez se perceba a impossibilidade de se traduzir, sem mais, zoon por ser-vivo e animal. É uma tradução tão impossível que chega a bloquear qualquer experiência do mistério da realidade nas realizações da vida. E nesta experiência os gregos sempre foram mestres acabados. É que a vigência do mistério pertencia tão radicalmente à experiência grega da vida e do viver que chamavam os deuses de zoa. Uma denominação que nada tem a ver com fetichismo e nem com idolatria ou magia. Em sua significação originária, é uma denominação condizente e adequada à vigência do extraordinário e ao vigor do mistério da realidade. É o que exprimiam com palavras theoi, theaontes kai daimones, isto é, em palavras que significam aparições, processos de eclodir, surgir e dar-se. Os gregos só puderam chamar de zoa as estátuas e imagens dos deuses, porque, para eles, as estátuas e imagens nunca eram estátuas e imagens no sentido de retrato e representação de ausentes na ausência. As imagens e estátuas eram os próprios deuses: presenças do mistério da realidade, realizações que emergem, surgem e vigoram por si mesmas, no vigor de uma vigência inesgotável, que não se deixa saturar. Os zoa põem os gregos numa relação toda especial com o ser real; na relação de dar-se na medida em que se retrai, de apresentar-se como e numa ausência. Para o grego, os zoa realizam uma presença que se basta a si mesma, que repousa em si mesma e, por isso, eles não necessitam pronunciar-se e falar. São zoa aloga. Assim, por exemplo, o pássaro realiza uma presença estranha. Ao voar, pairar e planar no ar, instaura uma liberdade particular, a liberdade de percorrer qualquer abertura do espaço. Ao gritar, cantar e chilrear, instala o chamado e o encanto do destino. Nesta realização, o grego faz a experiência da migração histórica dos homens e de sua passagem pela abertura da liberdade. Pois pertence sempre a toda abertura uma cláusula, a reserva e conservação do subtraído, do oculto e misterioso que se dá, por exemplo, no luto, na tragédia, na elegia. De algum modo, as aves têm sempre a ver com o laço que enlaça, com a rede que enreda a liberdade de mover-se e de viver. Em grego, seira, o laço, deu nome às encantadoras Sirenes e na forma de soros à uma funerária, ao esquife e ataúde.Aprendendo a pensar II: Uma leitura órfica de uma sentença grega
Agora talvez se perceba a impossibilidade de se traduzir, sem mais, zoon por ser-vivo e animal. É uma tradução tão impossível que chega a bloquear qualquer experiência do mistério da realidade nas realizações da vida. E nesta experiência os gregos sempre foram mestres acabados. É que a vigência do mistério pertencia tão radicalmente à experiência grega da vida e do viver que chamavam os deuses de zoa. Uma denominação que nada tem a ver com fetichismo e nem com idolatria ou magia. Em sua significação originária, é uma denominação condizente e adequada à vigência do extraordinário e ao vigor do mistério da realidade. É o que exprimiam com palavras theoi, theaontes kai daimones, isto é, em palavras que significam aparições, processos de eclodir, surgir e dar-se. Os gregos só puderam chamar de zoa as estátuas e imagens dos deuses, porque, para eles, as estátuas e imagens nunca eram estátuas e imagens no sentido de retrato e representação de ausentes na ausência. As imagens e estátuas eram os próprios deuses: presenças do mistério da realidade, realizações que emergem, surgem e vigoram por si mesmas, no vigor de uma vigência inesgotável, que não se deixa saturar. Os zoa põem os gregos numa relação toda especial com o ser real; na relação de dar-se na medida em que se retrai, de apresentar-se como e numa ausência. Para o grego, os zoa realizam uma presença que se basta a si mesma, que repousa em si mesma e, por isso, eles não necessitam pronunciar-se e falar. São zoa aloga. Assim, por exemplo, o pássaro realiza uma presença estranha. Ao voar, pairar e planar no ar, instaura uma liberdade particular, a liberdade de percorrer qualquer abertura do espaço. Ao gritar, cantar e chilrear, instala o chamado e o encanto do destino. Nesta realização, o grego faz a experiência da migração histórica dos homens e de sua passagem pela abertura da liberdade. Pois pertence sempre a toda abertura uma cláusula, a reserva e conservação do subtraído, do oculto e misterioso que se dá, por exemplo, no luto, na tragédia, na elegia. De algum modo, as aves têm sempre a ver com o laço que enlaça, com a rede que enreda a liberdade de mover-se e de viver. Em grego, seira, o laço, deu nome às encantadoras Sirenes e na forma de soros à uma funerária, ao esquife e ataúde.Aprendendo a pensar II: Uma leitura órfica de uma sentença grega
Agora talvez se perceba a impossibilidade de se traduzir, sem mais, zoon por ser-vivo e animal. É uma tradução tão impossível que chega a bloquear qualquer experiência do mistério da realidade nas realizações da vida. E nesta experiência os gregos sempre foram mestres acabados. É que a vigência do mistério pertencia tão radicalmente à experiência grega da vida e do viver que chamavam os deuses de zoa. Uma denominação que nada tem a ver com fetichismo e nem com idolatria ou magia. Em sua significação originária, é uma denominação condizente e adequada à vigência do extraordinário e ao vigor do mistério da realidade. É o que exprimiam com palavras theoi, theaontes kai daimones, isto é, em palavras que significam aparições, processos de eclodir, surgir e dar-se. Os gregos só puderam chamar de zoa as estátuas e imagens dos deuses, porque, para eles, as estátuas e imagens nunca eram estátuas e imagens no sentido de retrato e representação de ausentes na ausência. As imagens e estátuas eram os próprios deuses: presenças do mistério da realidade, realizações que emergem, surgem e vigoram por si mesmas, no vigor de uma vigência inesgotável, que não se deixa saturar. Os zoa põem os gregos numa relação toda especial com o ser real; na relação de dar-se na medida em que se retrai, de apresentar-se como e numa ausência. Para o grego, os zoa realizam uma presença que se basta a si mesma, que repousa em si mesma e, por isso, eles não necessitam pronunciar-se e falar. São zoa aloga. Assim, por exemplo, o pássaro realiza uma presença estranha. Ao voar, pairar e planar no ar, instaura uma liberdade particular, a liberdade de percorrer qualquer abertura do espaço. Ao gritar, cantar e chilrear, instala o chamado e o encanto do destino. Nesta realização, o grego faz a experiência da migração histórica dos homens e de sua passagem pela abertura da liberdade. Pois pertence sempre a toda abertura uma cláusula, a reserva e conservação do subtraído, do oculto e misterioso que se dá, por exemplo, no luto, na tragédia, na elegia. De algum modo, as aves têm sempre a ver com o laço que enlaça, com a rede que enreda a liberdade de mover-se e de viver. Em grego, seira, o laço, deu nome às encantadoras Sirenes e na forma de soros à uma funerária, ao esquife e ataúde.Aprendendo a pensar II: Uma leitura órfica de uma sentença grega
Agora talvez já se possa perceber e sentir que, no sentido de logos, a Linguagem só pode definir o homem em sua essência por não ser apenas meio, mesmo um meio natural, por não se reduzir a mero instrumento, mesmo o mais eficiente e universal dos instrumentos. No sentido de Logos, a Linguagem constitui, ao contrário, a fonte de todas as possibilidades humanas. É a Linguagem que contém em si todo o destino possível e impossível a ser cumprido pela humanidade nos muitos envios, nos diversos avios e nos inúmeros desvios de realização, tanto nos indivíduos como nos grupos e nas épocas. Longe de ser uma faculdade do espírito, a Linguagem é o próprio espírito do espírito, por ser o espírito que transfigura tudo, por abrir para si e para o outro a vigência de qualquer coisa. Trata-se de uma abertura que atravessa todos os fins e de-finições, que perpassa todos os limites e de-limitações, que transcende todos os termos e de-terminações. Pela Linguagem, o homem é uma janela aberta da e para a totalidade do real e o universo das realizações. E neste sentido que Mestre Eckhardt não pode aceitar a definição de São Tomás de que, na experiência originar riamente cristã, Deus est suum esse. Não. Para o Mestre de toda a Mística Renana, na experiência originariamente cristã, esse est Deus et intellectus est divinitas. Na história de suas realizações, o homem é o diálogo que o discurso da Linguagem vai entabulando entre o ser e o nada. Alienado não é quem perdeu a razão, mas quem perdeu tudo e ficou a sos com a razão, por se ter cortado todo contato com a Linguagem do todo. Ailenado não é quem não se importa com os empenhos da comunidade, que o carrega e sustenta. Alienado é quem já perdeu a possibilidade de se deixar im-portar pela Linguagem para os interesses do todo. E este o vigor de im-portar-se com o todo em tudo, de se deixar trans-portar para a totalidade, que na experiência dos gregos diz e significa ó logos. Por isso, para definirem o homem pelo próprio de sua humanidade, o chamaram de ser lógico: de zoon logon ekon, de uma realização que só se realiza e sempre se realiza na força de reunião e na dinâmica de coesão de uma conjuntura, isto é, na Linguagem do logos. E esta profundidade toda que se perde, é toda esta ousadia que se transforma em covardia, é toda esta grandeza que se apouca e amesquinha, quando as questões filosóficas do logos, se reduzem à lógica da razão, que calcula sentenças, predicados e funções. Ao longo da evolução histórica do Ocidente, o logos teve o destino da pele de Onagro, é une peau de chagrín!Aprendendo a pensar II: Uma leitura órfica de uma sentença grega
Neste sentido, o pensamento é a possibilidade em que se abre a abertura e se acolhe a pertinência do mistério à realidade, e a filosofia tem sido, durante mais de dois mil e quinhentos anos, o cuidado, o cultivo e o amor do pensamento, ora acentuando mais o abrir-se e a pertinência, ora reforçando mais a abertura e acolhida do mistério. A filosofia não é, pois, uma disciplina de ensino que se pudesse adquirir à maneira de conhecimentos técnicos ou por meio de um treinamento especializado. Mas também não é ciência pura, cujos teoremas pudessem ser axiomatizados ou vir um dia a ser aplicados com vantagem. A filosofia é um modo de ser tão radical que nem sente necessidade de renunciar ao útil e identificar-se com o inútil.Aprendendo a pensar II: Heidegger e a Modernidade: a correlação de sujeito e objeto
Neste sentido, o pensamento é a possibilidade em que se abre a abertura e se acolhe a pertinência do mistério à realidade, e a filosofia tem sido, durante mais de dois mil e quinhentos anos, o cuidado, o cultivo e o amor do pensamento, ora acentuando mais o abrir-se e a pertinência, ora reforçando mais a abertura e acolhida do mistério. A filosofia não é, pois, uma disciplina de ensino que se pudesse adquirir à maneira de conhecimentos técnicos ou por meio de um treinamento especializado. Mas também não é ciência pura, cujos teoremas pudessem ser axiomatizados ou vir um dia a ser aplicados com vantagem. A filosofia é um modo de ser tão radical que nem sente necessidade de renunciar ao útil e identificar-se com o inútil.Aprendendo a pensar II: Heidegger e a Modernidade: a correlação de sujeito e objeto
O que tudo isso de língua e Linguagem, de núcleo de identidade e abertura de compreensão, de silêncio e texto, tem a ver com o pensamento de Heidegger no mundo de hoje? — A resposta é simples: o que fizemos até aqui!Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
E que o homem se realiza sempre numa con-juntura. Con-juntura é uma abertura que se fecha e, ao se fechar, se abre para a identidade e diferença, na medida e toda vez que o homem se relaciona, quer num encontro quer num desencontro, com tudo que é e não é. A con-juntura opera continuamente. Ela nos ensina que o homem é originariamente “ser no mundo”, in-der-Welt-sein. Ser no mundo, entretanto, não quer dizer que o homem se acha no meio da natureza, ao lado de árvores, animais e coisas. Ser no mundo não é um fato nem uma necessidade ao nível dos fatos. Ser no mundo é uma estrutura de ser e de realização. Por sua dinâmica, o homem está sempre superando os limites entre o dentro e o fora. Por sua força, tudo se compreende num sistema de referências. Por sua dialética, se instala a identidade e diferença no ser quando, teórica ou praticamente, se diz que o homem não é uma coisa.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Heidegger reservou a palavra Da-sein para dizer e evocar o modo de ser próprio do homem. Trata-se de uma palavra composta de duas outras: Da e sein. A primeira exerce muitas vezes a função de advérbio de lugar com o sentido de “aí”, “lá”. Por isso foi quase sempre traduzida por “ser-aí” em português e espanhol, por “être-là” em francês e “esser-ci” em italiano. Apesar de fiel à letra, a tradução é infiel ao pensamento. Se avia a língua, desvia da Linguagem. Pois em Da-sein, o Da não pensa um lugar, mas a abertura do homem para tudo que, de algum modo, é. Numa preleção em Freiburg i. Br., Heidegger chamou esta abertura: “o espaço aberto em si mesmo pela irrupção do ser”, das Da ist der in sich aufgebrochene Raum. É que o homem não está simplesmente no espaço. Seu modo de ser espacial é abrindo espaços para o Ser passar. Realizando-se na intimidade das coisas, o homem traz sempre com seu ser algo assim como um “círculo de desvelamento”, ein Umkreis von Offenbarkeit. Neste círculo e por ele, os seres se podem manifestar como os seres que são. O Da de Da-sein diz, pois, que, instaurando com seu ser uma abertura, o homem se abre a todo instante num círculo de desvendamento.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Heidegger reservou a palavra Da-sein para dizer e evocar o modo de ser próprio do homem. Trata-se de uma palavra composta de duas outras: Da e sein. A primeira exerce muitas vezes a função de advérbio de lugar com o sentido de “aí”, “lá”. Por isso foi quase sempre traduzida por “ser-aí” em português e espanhol, por “être-là” em francês e “esser-ci” em italiano. Apesar de fiel à letra, a tradução é infiel ao pensamento. Se avia a língua, desvia da Linguagem. Pois em Da-sein, o Da não pensa um lugar, mas a abertura do homem para tudo que, de algum modo, é. Numa preleção em Freiburg i. Br., Heidegger chamou esta abertura: “o espaço aberto em si mesmo pela irrupção do ser”, das Da ist der in sich aufgebrochene Raum. É que o homem não está simplesmente no espaço. Seu modo de ser espacial é abrindo espaços para o Ser passar. Realizando-se na intimidade das coisas, o homem traz sempre com seu ser algo assim como um “círculo de desvelamento”, ein Umkreis von Offenbarkeit. Neste círculo e por ele, os seres se podem manifestar como os seres que são. O Da de Da-sein diz, pois, que, instaurando com seu ser uma abertura, o homem se abre a todo instante num círculo de desvendamento.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Heidegger reservou a palavra Da-sein para dizer e evocar o modo de ser próprio do homem. Trata-se de uma palavra composta de duas outras: Da e sein. A primeira exerce muitas vezes a função de advérbio de lugar com o sentido de “aí”, “lá”. Por isso foi quase sempre traduzida por “ser-aí” em português e espanhol, por “être-là” em francês e “esser-ci” em italiano. Apesar de fiel à letra, a tradução é infiel ao pensamento. Se avia a língua, desvia da Linguagem. Pois em Da-sein, o Da não pensa um lugar, mas a abertura do homem para tudo que, de algum modo, é. Numa preleção em Freiburg i. Br., Heidegger chamou esta abertura: “o espaço aberto em si mesmo pela irrupção do ser”, das Da ist der in sich aufgebrochene Raum. É que o homem não está simplesmente no espaço. Seu modo de ser espacial é abrindo espaços para o Ser passar. Realizando-se na intimidade das coisas, o homem traz sempre com seu ser algo assim como um “círculo de desvelamento”, ein Umkreis von Offenbarkeit. Neste círculo e por ele, os seres se podem manifestar como os seres que são. O Da de Da-sein diz, pois, que, instaurando com seu ser uma abertura, o homem se abre a todo instante num círculo de desvendamento.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Por esta abertura, o homem já vem fazendo desde sempre irrupção na totalidade do real, à raiz de todo e qualquer comportamento: na criação da arte, na transfiguração de Eros, na produção do trabalho, na radicalidade do pensamento, na antecipação para a morte, na liberdade do jogo, na pesquisa da ciência, na transformação da técnica, na estruturação política, nas transcendências das ideologias, em tudo. Na aula inaugural de 1929, Was ist Metaphysik?, Heidegger nos convida a pensar esta abertura do Da com as seguintes palavras: O homem, um ser entre outros seres, empreende pesquisas científicas. Neste “empreendimento” nada menos acontece do que a irrupção de um ser, chamado homem, na totalidade dos seres, e de tal modo, que, nesta irrupção e por ela, os seres florescem naquilo que são e assim como são. É a irrupção florescente que, à sua maneira, ajuda os seres a virem a si mesmos.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Por esta abertura, o homem já vem fazendo desde sempre irrupção na totalidade do real, à raiz de todo e qualquer comportamento: na criação da arte, na transfiguração de Eros, na produção do trabalho, na radicalidade do pensamento, na antecipação para a morte, na liberdade do jogo, na pesquisa da ciência, na transformação da técnica, na estruturação política, nas transcendências das ideologias, em tudo. Na aula inaugural de 1929, Was ist Metaphysik?, Heidegger nos convida a pensar esta abertura do Da com as seguintes palavras: O homem, um ser entre outros seres, empreende pesquisas científicas. Neste “empreendimento” nada menos acontece do que a irrupção de um ser, chamado homem, na totalidade dos seres, e de tal modo, que, nesta irrupção e por ela, os seres florescem naquilo que são e assim como são. É a irrupção florescente que, à sua maneira, ajuda os seres a virem a si mesmos.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
O Da é, portanto, a abertura que, graças à ação desveladora de seu ser, todo homem já traz consigo. No âmbito desta abertura se realiza desde sempre o encontro com os seres que, nela e por ela, se fazem manifestos. A abertura institui, assim, uma comunhão aberta no ser, um ser-com extático. É o que também nos provoca a pensar o prefixo ek- da palavra híbrida, efc-sistência, que traduz fielmente o pensamento evocado pelo Da.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
O Da é, portanto, a abertura que, graças à ação desveladora de seu ser, todo homem já traz consigo. No âmbito desta abertura se realiza desde sempre o encontro com os seres que, nela e por ela, se fazem manifestos. A abertura institui, assim, uma comunhão aberta no ser, um ser-com extático. É o que também nos provoca a pensar o prefixo ek- da palavra híbrida, efc-sistência, que traduz fielmente o pensamento evocado pelo Da.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
O Da é, portanto, a abertura que, graças à ação desveladora de seu ser, todo homem já traz consigo. No âmbito desta abertura se realiza desde sempre o encontro com os seres que, nela e por ela, se fazem manifestos. A abertura institui, assim, uma comunhão aberta no ser, um ser-com extático. É o que também nos provoca a pensar o prefixo ek- da palavra híbrida, efc-sistência, que traduz fielmente o pensamento evocado pelo Da.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Mas o Da é apenas um dos termos componentes do Da-sein. O outro é sein, ser. Para se compreender, em todo seu apelo de socialidade e ser-com, o Da-sein, temos de aprender a pensar o papel que nele desempenha o Sein, o Ser. Para se abrir em sua abertura constitutiva, o homem necessita libertar-se para a liberdade do outro. E como se dá a libertação para a liberdade do outro? — E o que nos leva a pensar o segundo termo componente do Da-sein.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Em Der Rückgang in den Grund der Metaphysik, “O Retorno ao solo da Metafísica”, de 1949, diz Heidegger sobre a eloquência do termo, existência: O que significa “existência” em “Ser e Tempo”? — A palavra evoca um modo de ser, a saber, o ser daquele ente que está aberto para a abertura do Ser, na qual se mantém à medida em que se lhe expõe.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Na constituição do ek- da ek-sistência opera uma liberdade. Uma liberdade que libera o homem da escravidão aos usos das coisas e abusos das pessoas, para uma diversidade de relações inesperadas, e inesperadas porque, sempre de novo, surpreendem com a inesgotabilidade de seu mistério. É a liberdade do Ser, concedendo o “círculo de desvelamento”, que, existindo, o homem sempre traz consigo. Ser homem é tornar-se portador e vir a ser guardião desta Verdade do Ser. E não é outro o sentido da famosa frase da Carta de Jean Beaufret: der Mensch ist der Hist des Seins, “o homem é o pastor do Ser”. A situação Histórica, em que o homem vem a estar ao longo da caminhada de sua realização social, provém da maneira em que exerce este papel de guardião e cumpre esta função de pastor. O Ser se destina na abertura da existência na medida em que, retraindo-se, instala o homem em determinado projeto de realização histórica de sua verdade. É este instalar do homem pelo Ser no destino de sua verdade, que nos convida a pensar a palavra, ek-sistência, como tradução fiel de Da-sein. Assim, o projeto extático do ek- não cria o Ser nem o homem abre a abertura em que é instalado. Ao contrário, é a abertura que sempre se dá aberta pelo subtrair-se do Ser para o retraimento próprio de seu Mistério. Pois, dar-se como abertura, enquanto se retrai como mistério, é a vigência em que vigora o vigor do Ser. E isso o que Heidegger quer dizer quando, sempre de novo, acentua que o Ser não é um ente. In-sistindo no Mistério da ek-sistência, o homem pode, então, ser tocado pelas diferenças dos seres que se manifestam nos projetos históricos de sua abertura.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Na constituição do ek- da ek-sistência opera uma liberdade. Uma liberdade que libera o homem da escravidão aos usos das coisas e abusos das pessoas, para uma diversidade de relações inesperadas, e inesperadas porque, sempre de novo, surpreendem com a inesgotabilidade de seu mistério. É a liberdade do Ser, concedendo o “círculo de desvelamento”, que, existindo, o homem sempre traz consigo. Ser homem é tornar-se portador e vir a ser guardião desta Verdade do Ser. E não é outro o sentido da famosa frase da Carta de Jean Beaufret: der Mensch ist der Hist des Seins, “o homem é o pastor do Ser”. A situação Histórica, em que o homem vem a estar ao longo da caminhada de sua realização social, provém da maneira em que exerce este papel de guardião e cumpre esta função de pastor. O Ser se destina na abertura da existência na medida em que, retraindo-se, instala o homem em determinado projeto de realização histórica de sua verdade. É este instalar do homem pelo Ser no destino de sua verdade, que nos convida a pensar a palavra, ek-sistência, como tradução fiel de Da-sein. Assim, o projeto extático do ek- não cria o Ser nem o homem abre a abertura em que é instalado. Ao contrário, é a abertura que sempre se dá aberta pelo subtrair-se do Ser para o retraimento próprio de seu Mistério. Pois, dar-se como abertura, enquanto se retrai como mistério, é a vigência em que vigora o vigor do Ser. E isso o que Heidegger quer dizer quando, sempre de novo, acentua que o Ser não é um ente. In-sistindo no Mistério da ek-sistência, o homem pode, então, ser tocado pelas diferenças dos seres que se manifestam nos projetos históricos de sua abertura.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Na constituição do ek- da ek-sistência opera uma liberdade. Uma liberdade que libera o homem da escravidão aos usos das coisas e abusos das pessoas, para uma diversidade de relações inesperadas, e inesperadas porque, sempre de novo, surpreendem com a inesgotabilidade de seu mistério. É a liberdade do Ser, concedendo o “círculo de desvelamento”, que, existindo, o homem sempre traz consigo. Ser homem é tornar-se portador e vir a ser guardião desta Verdade do Ser. E não é outro o sentido da famosa frase da Carta de Jean Beaufret: der Mensch ist der Hist des Seins, “o homem é o pastor do Ser”. A situação Histórica, em que o homem vem a estar ao longo da caminhada de sua realização social, provém da maneira em que exerce este papel de guardião e cumpre esta função de pastor. O Ser se destina na abertura da existência na medida em que, retraindo-se, instala o homem em determinado projeto de realização histórica de sua verdade. É este instalar do homem pelo Ser no destino de sua verdade, que nos convida a pensar a palavra, ek-sistência, como tradução fiel de Da-sein. Assim, o projeto extático do ek- não cria o Ser nem o homem abre a abertura em que é instalado. Ao contrário, é a abertura que sempre se dá aberta pelo subtrair-se do Ser para o retraimento próprio de seu Mistério. Pois, dar-se como abertura, enquanto se retrai como mistério, é a vigência em que vigora o vigor do Ser. E isso o que Heidegger quer dizer quando, sempre de novo, acentua que o Ser não é um ente. In-sistindo no Mistério da ek-sistência, o homem pode, então, ser tocado pelas diferenças dos seres que se manifestam nos projetos históricos de sua abertura.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Na constituição do ek- da ek-sistência opera uma liberdade. Uma liberdade que libera o homem da escravidão aos usos das coisas e abusos das pessoas, para uma diversidade de relações inesperadas, e inesperadas porque, sempre de novo, surpreendem com a inesgotabilidade de seu mistério. É a liberdade do Ser, concedendo o “círculo de desvelamento”, que, existindo, o homem sempre traz consigo. Ser homem é tornar-se portador e vir a ser guardião desta Verdade do Ser. E não é outro o sentido da famosa frase da Carta de Jean Beaufret: der Mensch ist der Hist des Seins, “o homem é o pastor do Ser”. A situação Histórica, em que o homem vem a estar ao longo da caminhada de sua realização social, provém da maneira em que exerce este papel de guardião e cumpre esta função de pastor. O Ser se destina na abertura da existência na medida em que, retraindo-se, instala o homem em determinado projeto de realização histórica de sua verdade. É este instalar do homem pelo Ser no destino de sua verdade, que nos convida a pensar a palavra, ek-sistência, como tradução fiel de Da-sein. Assim, o projeto extático do ek- não cria o Ser nem o homem abre a abertura em que é instalado. Ao contrário, é a abertura que sempre se dá aberta pelo subtrair-se do Ser para o retraimento próprio de seu Mistério. Pois, dar-se como abertura, enquanto se retrai como mistério, é a vigência em que vigora o vigor do Ser. E isso o que Heidegger quer dizer quando, sempre de novo, acentua que o Ser não é um ente. In-sistindo no Mistério da ek-sistência, o homem pode, então, ser tocado pelas diferenças dos seres que se manifestam nos projetos históricos de sua abertura.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Na constituição do ek- da ek-sistência opera uma liberdade. Uma liberdade que libera o homem da escravidão aos usos das coisas e abusos das pessoas, para uma diversidade de relações inesperadas, e inesperadas porque, sempre de novo, surpreendem com a inesgotabilidade de seu mistério. É a liberdade do Ser, concedendo o “círculo de desvelamento”, que, existindo, o homem sempre traz consigo. Ser homem é tornar-se portador e vir a ser guardião desta Verdade do Ser. E não é outro o sentido da famosa frase da Carta de Jean Beaufret: der Mensch ist der Hist des Seins, “o homem é o pastor do Ser”. A situação Histórica, em que o homem vem a estar ao longo da caminhada de sua realização social, provém da maneira em que exerce este papel de guardião e cumpre esta função de pastor. O Ser se destina na abertura da existência na medida em que, retraindo-se, instala o homem em determinado projeto de realização histórica de sua verdade. É este instalar do homem pelo Ser no destino de sua verdade, que nos convida a pensar a palavra, ek-sistência, como tradução fiel de Da-sein. Assim, o projeto extático do ek- não cria o Ser nem o homem abre a abertura em que é instalado. Ao contrário, é a abertura que sempre se dá aberta pelo subtrair-se do Ser para o retraimento próprio de seu Mistério. Pois, dar-se como abertura, enquanto se retrai como mistério, é a vigência em que vigora o vigor do Ser. E isso o que Heidegger quer dizer quando, sempre de novo, acentua que o Ser não é um ente. In-sistindo no Mistério da ek-sistência, o homem pode, então, ser tocado pelas diferenças dos seres que se manifestam nos projetos históricos de sua abertura.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Diálogo e dialética não são apenas a mesma palavra. São também a mesma coisa. E esta mesma coisa no ser do diálogo com a dialética é o ser-com. Pois no vigor do ser-com, dialética é arte do diálogo. Se foi em Platão que se explicou a “arte dialética”, desde sempre o diálogo tem sido a força originária de toda dinâmica de pensar. Só se pensa um pensamento quando se instala um diálogo entre posições opostas de uma mesma composição da Linguagem. Radicalmente, não é o homem que fala. Não é o homem que pensa. Não é o homem que sente. Não é o homem que age. Pois é o processo de instalação do diálogo no vigor do ser-com que abre o horizonte e distende a abertura para o homem estruturar-se como homem. É o sentido da palavra de Platão: “o pensamento é o diálogo da estrutura do homem com o próprio ser-com”! (Platão, Crátilo).Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
Posso, portanto, descobrir os outros, como co-ek-sis-tentes, porque eu mesmo me realizo num ser-com, isto é, aberto aos outros, por compartilhar com eles a abertura para o mundo do ser e do nada no tempo. Pelo ser-com a ek-sistência dos outros nos é desvelada. Este desvela-mento é também constitutivo da mundaneidade do mundo, de sua contextura. Por isso não é possível isolar um mundo de coisas e objetos, para se lhe ajuntar ulteriormente um mundo de sujeitos. Ao contrário, o mundo já nos é dado sempre com os outros. Ek-sistir é originariamente co-ek-sistir. O social e a sociedade constituem o nosso desafio. O entendimento de hoje procura aceitá-lo só com os recursos da ciência e da técnica planetárias. Entram, então, em silêncio as possibilidades do pensamento radical. Neste silêncio, a metafísica atinge com o império da ciência e da técnica o ponto máximo da expansão e resistência de suas virtualidades.Aprendendo a pensar II: O Pensamento de Heidegger no silêncio de hoje
É que o homem só se realiza na pre-sença. Pre-sença é uma abertura que se fecha e, ao fechar-se, abre-se para a identidade e diferença, na medida e toda vez que o homem se conquista e assume o ofício de ser, quer num encontro, quer num desencontro, com tudo que ele é e não é, tem e não tem. É esta pre-sença que joga originariamente nosso ser no mundo. Mas ser-no-mundo não quer dizer que o homem se acha no meio da natureza, ao lado de árvores, animais, coisas e outros homens. Ser-no-mundo não é nem um fato nem uma necessidade no nível dos fatos. Ser-no-mundo é uma estrutura de realização. Por sua dinâmica, o homem está sempre superando os limites entre o dentro e o fora. Por sua força, tudo se compreende numa conjuntura de referências. Por sua integração, instala-se a identidade e a diferença no ser quando, teórica e praticamente, se diz que o homem não é uma coisa simplesmente dada, nem uma engrenagem numa máquina e nem uma ilha no oceano.Aprendendo a pensar II: Ser e Tempo