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A-LETHEIA............39
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"De fato, o ser-descoberto é sempre um rapto. Será simples acaso o fato de os gregos se expressarem sobre a essência da verdade através de um termo privativo (a-letheia)? Não anuncia, uma tal maneira de o ser-aí se exprimir a si mesmo, uma compreensão ontológica e original de si que sublinha, ainda que ao modo de uma compreensão pré-ontológica, que o estar-na-não-verdade constitui uma determinação essencial do ser-no-mundo?".
| Compreensão e Finitude Introdução |
A discussão do problema da aletheia tem sentido tríplice e não deve, portanto, ser simplificada. Assim, deve-se atentar para três aspectos da posição de Heidegger diante do problema da aletheia. Primeiro, se trata de discutir a vigência e validez da interpretação privativa de a-letheia entre os gregos. Tinham os gregos presente, no uso popular, o sentido etimológico da palavra como des-velamento? O segundo problema consiste em compreender a realidade que Heidegger pensa através da aletheia. Qual é o conteúdo do pensamento que se ocupa do binômio desvelamento-velamento e pensa o ser como residindo nessa ambivalência? A terceira questão pergunta se Heidegger atinge a essência do pensamento grego pela sua interpretação da aletheia. Pensaram os gregos, mediante a palavra aletheia, sempre o velamento como ligado ao desvelamento? Pensou a consciência dos filósofos gregos o ser no movimento de velamento e desvelamento, ou é para eles o ser pura presença? E, afinal, uma pergunta poderia resumir um problema que se esconde nas três questões: quem pensa a verdade como velamento e desvelamento pode ser taxado de subjetivista? Nossa análise se dirige fundamentalmente, em todo o capítulo, para a solução da primeira questão.
| Compreensão e Finitude I 1 |
A primeira interpretação de aletheia no sentido de a-letheia, não-velamento surge em Sextus Empiricus: "hon alethe men ta koinos pasi phainomena; pseude de ta me toiauta; hothen kai alethes pheronymos eiresthai to me lethon ten koinen gnomem." / "Os fenômenos comuns a todos pertencem à verdade tanto quanto os que não são comuns pertencem à inverdade. E a partir daí (donde) concebes, com razão, como verdadeiro aquilo que não caiu no esquecimento do entendimento comum."
| Compreensão e Finitude I 1 |
Em segundo lugar, Esíquio sugere do mesmo modo a etimologia a-letheia: "Aletheia: apseude kai ta (me) epilanthanomena. Aletheis: hoi meden epilanthanomenoi hos Pindaros. Alethes, dikaia e dikaios, e mnemom, kata steresin tes lethes." / "Verdade: não-falso e as coisas não-ocultas (não-veladas). Verdadeiros: aqueles que não estão ocultos (não-velados), como diz Píndaro. Verdadeiros: justo ou justa ou o que tem memória, conforme a privação do esquecimento."
| Compreensão e Finitude I 1 |
Em 1850, J. Classen interpreta explicitamente a etimologia de a-letheia: "É muito característica, para a inclinação própria que queremos mostrar na língua grega, ao fato de ela não tomar a palavra mais comum para aquilo que visa o conhecimento humano em si mesmo, para a verdade do ser e da essência das coisas, mas da relação que essas coisas têm com nossa compreensão. Verdadeiro é para os gregos o desvelado, a-lethes (de letho, lanthano), e a verdade, aletheia se atribui às coisas e palavras à medida que não se subtrai de nosso juízo."
| Compreensão e Finitude I 1 |
Heribert Boeder, apesar de restringir ao sentido original da etimologia da palavra a tradução de aletheia como desvelamento, concede com isso, no entanto, que é possível pensar a-letheia entre os gregos: "A interpretação de aletheia como ‘desvelamento’, à diferença da verdade entendida como ‘certeza’, parece que encontra, pelo que acima dissemos, apenas apoio no significado original da palavra. O fundamento da certeza, isto é, o âmbito da abertura dos entes, somente se oferece ao olhar quando a certeza e, assim, a relação entre o saber e aquilo que aparece, dominam a compreensão da aletheia."
| Compreensão e Finitude I 1 |
Examinados alguns aspectos referentes à aletheia, que se apresentam até o século quinto, completaremos a análise procurando localizar a presença oculta da interpretação de a-letheia (desvelamento) nos autores gregos, quer pela combinação de palavras diversas com aletheia, quer pela aproximação entre lethe e aletheia, o que mostrará claramente que a aletheia foi pensada etimologicamente como a-letheia: não-velamento. Tomemos primeiro duas passagens da Ilíada. No Canto 23 se lê: "Puseram-se em seus lugares; muito ao longe, no plaino, Aquiles, lhes assinalou a meta final, onde pôs como guarda o venerando Fenice, companheiro do velho Peleu, para que tudo observasse (memneoto) e depois lhe contasse a verdade [aletheien]". A combinação de memneoto e aletheien sugere aqui o sentido etimológico a-letheien. O ancião deveria vigiar para que nada lhe escapasse (lethe) e para que pudesse dizer, assim, a a-letheien. Nada lhe deveria ficar velado para que pudesse dizer o não-velado.
| Compreensão e Finitude I 1 |
Examinados alguns aspectos referentes à aletheia, que se apresentam até o século quinto, completaremos a análise procurando localizar a presença oculta da interpretação de a-letheia (desvelamento) nos autores gregos, quer pela combinação de palavras diversas com aletheia, quer pela aproximação entre lethe e aletheia, o que mostrará claramente que a aletheia foi pensada etimologicamente como a-letheia: não-velamento. Tomemos primeiro duas passagens da Ilíada. No Canto 23 se lê: "Puseram-se em seus lugares; muito ao longe, no plaino, Aquiles, lhes assinalou a meta final, onde pôs como guarda o venerando Fenice, companheiro do velho Peleu, para que tudo observasse (memneoto) e depois lhe contasse a verdade [aletheien]". A combinação de memneoto e aletheien sugere aqui o sentido etimológico a-letheien. O ancião deveria vigiar para que nada lhe escapasse (lethe) e para que pudesse dizer, assim, a a-letheien. Nada lhe deveria ficar velado para que pudesse dizer o não-velado.
| Compreensão e Finitude I 1 |
Ernst Heitsch encerra sua análise da "aletheia não-filosófica", discordando de Friedländer e defendendo implicitamente a posição de Heidegger: "Tendo-se demonstrado o fato de que, em todos os tempos, era fácil para os gregos pensar a-letheia, é preciso que se elucide qual a importância disso. A assertiva, fácil de compreender, de que (des)velamento pressupõe um espectador, de que assim a compreensão etimológica de aletheia, orientada no composto, subjetiviza o conceito de verdade, permanece superficial e desfaz, justamente, a diferença decisiva com a palavra alemã ‘verdade’. O decisivo é que ‘aletheia’, enquanto desvelamento, deve ser atribuída ao objeto e a verdade, pelo contrário, à afirmação; aletheia é primariamente uma qualidade do mundo enquanto conceito inclusivo dos objetos, enquanto a palavra alemã verdade, pelo contrário, é uma qualidade do juízo sobre os objetos [...] É possível, entretanto, ampliar ainda mais e inserir num âmbito maior a perspectiva que atingimos sobre a aletheia. Pois, não se deve deixar de notar que as observações realizadas se harmonizam da melhor maneira com outras aparições que também pertencem precisamente a esse âmbito. É preciso lembrar que o aletheia eipein tem seu oposto no "ocultar" (aparecem expressões como kryptein e keuthein). — É preciso lembrar a expressão corrente lelethen autous, hoti [...] e sua inversão ouk elanthamen autous, hoti [...], expressões em que a referência às respectivas verificações se faz sob o ponto de vista do velamento e desvelamento: a quem não permanece velado, que [...] este sabe, justamente, nesta situação, a ‘verdade’. — É preciso pensar nos apelos dos oradores nos juízes, ‘med ekein hymas, o andres Athenaioi, lanthaneto, hoti’ [...]: os oradores devem, pelo contrário, conhecer a ‘verdade’. — É preciso pensar na expressão vigorante aletheia ton pragmaton, que na sua inversão conduz para a expressão como tauta ginómena elelethee (Heródoto 9, 22, 3). É preciso perguntar, além disso, o que significa o fato de expressões como aletheian zetein, euriskein, gignoskein serem inteiramente correntes e de a expressão correspondente, que se poderia esperar, ser, contudo, manifestamente evitada: aletheian lanthanei. A qualquer grego isso teria parecido evidentemente uma piada sem graça. — E, finalmente, seja lembrado o fato de que tanto o aspecto que reside no phainesthai (aparecer) ‘não-filosófico’, de ver, por assim dizer, as coisas a partir de si mesmas, de deixar que elas se mostrem em si mesmas, enquanto são o que são, como também a compreensão do ser, que se manifesta no termo filosófico ta phainomena, correspondem exatamente ao caráter do conceito pré-filosófico de ‘verdade’."
| Compreensão e Finitude I 1 |
Essas análises, todas realizadas numa perspectiva não-filosófica, evidenciaram, com suficiente amplitude, o contexto em que se constituiu e em que se desenvolveu o sentido de aletheia. Não apenas sua etimologia sugere não-velamento, portanto, a-letheia, mas, o próprio uso da palavra, ao longo dos séculos, deu-lhe um significado corrente que se aproxima e mesmo coincide com sua etimologia.
| Compreensão e Finitude I 1 |
Com essa observação descobrimos que Heidegger, desde muito cedo, se previne contra o formalismo da etimologia, vendo nela um modo de acesso ao que interessa ao pensamento e vendo, a partir disso, a possibilidade da verdadeira interpretação etimológica. Por isso, a insistência no alfa privativo de a-letheia já revela que isso não é uma teimosia de filólogo, mas, muito antes, a constância de um pensamento que já vem do objeto para o qual aponta o sentido da a-letheia. Assim, Heidegger dirá, em 1943: "O recurso à significação da palavra aletheia nada resolve e nada de útil nos dá". Mais adiante: "O simples, sem dúvida, não nos é dado ainda pelo fato de alardearmos de forma simplista o significado de aletheia como ‘desvelamento’." Ainda no mesmo texto diz ele, referindo-se ao fato de que primeiro experimentou a esfera do objeto para onde aponta aletheia: "Não há nenhuma necessidade de apelar primeiro a uma etimologia, aparentemente arbitrária, da palavra aletheia, para perceber como, em toda parte, a presença das coisas presentes somente fala enquanto resplende, se faz conhecer, está estendida diante, emerge, se produz, se oferece à vista". Mostrando o fato de que a própria palavra aletheia se origina, entre os gregos, daquilo que mostra, Heidegger diz: "Tudo isso, em sua harmonia não perturbada, no seio da existência grega e de sua língua, seria impensável, se ‘permanecer velado’ e ‘permanecer desvelado’ já não dominassem como aquilo que de nenhum modo primeiro é preciso dizer expressamente, porque dele vem a própria linguagem." Numa conferência de 1958, ele afirma que a palavra aletheia "se tornou uma pedra de tropeço porque a gente se atém apenas a essa palavra isolada e à sua etimologia, em lugar de pensar a partir da coisa, para onde apontam o desvelamento e a desocultação."
| Compreensão e Finitude I 2 |
Com essa observação descobrimos que Heidegger, desde muito cedo, se previne contra o formalismo da etimologia, vendo nela um modo de acesso ao que interessa ao pensamento e vendo, a partir disso, a possibilidade da verdadeira interpretação etimológica. Por isso, a insistência no alfa privativo de a-letheia já revela que isso não é uma teimosia de filólogo, mas, muito antes, a constância de um pensamento que já vem do objeto para o qual aponta o sentido da a-letheia. Assim, Heidegger dirá, em 1943: "O recurso à significação da palavra aletheia nada resolve e nada de útil nos dá". Mais adiante: "O simples, sem dúvida, não nos é dado ainda pelo fato de alardearmos de forma simplista o significado de aletheia como ‘desvelamento’." Ainda no mesmo texto diz ele, referindo-se ao fato de que primeiro experimentou a esfera do objeto para onde aponta aletheia: "Não há nenhuma necessidade de apelar primeiro a uma etimologia, aparentemente arbitrária, da palavra aletheia, para perceber como, em toda parte, a presença das coisas presentes somente fala enquanto resplende, se faz conhecer, está estendida diante, emerge, se produz, se oferece à vista". Mostrando o fato de que a própria palavra aletheia se origina, entre os gregos, daquilo que mostra, Heidegger diz: "Tudo isso, em sua harmonia não perturbada, no seio da existência grega e de sua língua, seria impensável, se ‘permanecer velado’ e ‘permanecer desvelado’ já não dominassem como aquilo que de nenhum modo primeiro é preciso dizer expressamente, porque dele vem a própria linguagem." Numa conferência de 1958, ele afirma que a palavra aletheia "se tornou uma pedra de tropeço porque a gente se atém apenas a essa palavra isolada e à sua etimologia, em lugar de pensar a partir da coisa, para onde apontam o desvelamento e a desocultação."
| Compreensão e Finitude I 2 |
Heidegger não se atém a um fetichismo etimológico e procura tirar da etimologia de a-letheia tudo o que nela se esconde para seu pensamento. É precisamente o mundo dos gregos, em sua experiência originária, que a metafísica lentamente esqueceu, que contém em si a possibilidade de eclodir numa palavra que o resume. Sem a compreensão da experiência grega, a etimologia da palavra a-letheia é letra morta. Para Heidegger a palavra a-letheia é a descoberta, resultado da sua meditação sobre a história da filosofia, que caracteriza particularmente a sua linguagem e modo de expressão do objeto de sua interpretação: a questão do ser.
| Compreensão e Finitude I 2 |
Heidegger não se atém a um fetichismo etimológico e procura tirar da etimologia de a-letheia tudo o que nela se esconde para seu pensamento. É precisamente o mundo dos gregos, em sua experiência originária, que a metafísica lentamente esqueceu, que contém em si a possibilidade de eclodir numa palavra que o resume. Sem a compreensão da experiência grega, a etimologia da palavra a-letheia é letra morta. Para Heidegger a palavra a-letheia é a descoberta, resultado da sua meditação sobre a história da filosofia, que caracteriza particularmente a sua linguagem e modo de expressão do objeto de sua interpretação: a questão do ser.
| Compreensão e Finitude I 2 |
Heidegger não se atém a um fetichismo etimológico e procura tirar da etimologia de a-letheia tudo o que nela se esconde para seu pensamento. É precisamente o mundo dos gregos, em sua experiência originária, que a metafísica lentamente esqueceu, que contém em si a possibilidade de eclodir numa palavra que o resume. Sem a compreensão da experiência grega, a etimologia da palavra a-letheia é letra morta. Para Heidegger a palavra a-letheia é a descoberta, resultado da sua meditação sobre a história da filosofia, que caracteriza particularmente a sua linguagem e modo de expressão do objeto de sua interpretação: a questão do ser.
| Compreensão e Finitude I 2 |
O quanto se amplia a palavra a-letheia na obra do pensador mostra uma passagem de 1937: "Ora, quanto mais frequentemente a maioria dos homens, no seu cotidiano, caem vítimas da aparência e dos pontos de vista correntes sobre o ente e nisso se sentem à vontade, achando-se assim confirmados, tanto mais se esconde para eles o ser (lanthanei). A consequência desse ocultamento do ser junto aos homens reside no fato de serem surpreendidos pela lethe, por aquele ocultamento do ser, que suscita a aparência de que não se dá algo como o ser. Traduzimos a palavra grega lethe por ‘esquecer’, caso em que ‘esquecer’ deve ser pensado metafisicamente não psicologicamente. A maioria se afunda no esquecimento do ser, ainda que, ou melhor, porque eles constantemente correm atrás daquilo que encontram ao redor de si."
| Compreensão e Finitude I 2 |
Esta análise, até agora desenvolvida, prepara a reflexão sobre a a-letheia em sua estrutura ambivalente de velamento e desvelamento. A preferência de Heidegger por essa palavra grega tem raízes na plasticidade com que nela se apresentam as duas dimensões que sempre acompanham o ser: velamento e desvelamento. Assim, é possível revelar, no sentido que o filósofo dá a a-letheia, uma ambivalência, que salva a dinamicidade dos existenciais, que reserva em si o movimento da physis e da ousia; ambivalência que permite uma aproximação entre as palavras gregas que ele sempre torna a examinar: physis, aletheia, logos e ousia.
| Compreensão e Finitude I 3 |
Esta análise, até agora desenvolvida, prepara a reflexão sobre a a-letheia em sua estrutura ambivalente de velamento e desvelamento. A preferência de Heidegger por essa palavra grega tem raízes na plasticidade com que nela se apresentam as duas dimensões que sempre acompanham o ser: velamento e desvelamento. Assim, é possível revelar, no sentido que o filósofo dá a a-letheia, uma ambivalência, que salva a dinamicidade dos existenciais, que reserva em si o movimento da physis e da ousia; ambivalência que permite uma aproximação entre as palavras gregas que ele sempre torna a examinar: physis, aletheia, logos e ousia.
| Compreensão e Finitude I 3 |
A meditação sobre a aletheia auxilia particularmente a compreensão do problema da negatividade e da finitude na filosofia de Heidegger e, desse modo, do movimento fundamental que o separa da problemática homônima da filosofia da tradição. Desde Ser e Tempo, a aletheia é analisada em sua estrutura ambivalente. Enquanto aletheia, ela sempre mantém em si mesma uma indicação para o velamento, donde emerge o que se mostra, o que está não-velado, o desvelado. O reverso de a-letheia é o não-desvelamento. Na palavra a-letheia se insere, a partir da interpretação heideggeriana, o problema da negatividade e finitude. Pelo fato de o filósofo pensar o ser como a-letheia, introduz-se na sua ideia de ser o movimento da negatividade e finitude. Isto poderia conduzir, à primeira vista, para a convicção de que, em última instância, a reflexão de Heidegger não é estranha ao grande movimento da negatividade e finitude modernas que se estende de Hegel a Sartre. Mas, se tivermos presente a radicação do pensamento moderno na metafísica tradicional e se lembrarmos que, desde seu ponto de partida, o pensador se vê em oposição a ela, já previamente compreendemos a necessidade de distinguir a afirmação heideggeriana da finitude e negatividade das posições da tradição. Positivamente, a análise do problema, em Heidegger, deverá elucidar a questão da compreensão e finitude que ele desenvolve na analítica das estruturas circulares do ser-aí e no movimento da viravolta.
| Compreensão e Finitude I 4 |
A meditação sobre a aletheia auxilia particularmente a compreensão do problema da negatividade e da finitude na filosofia de Heidegger e, desse modo, do movimento fundamental que o separa da problemática homônima da filosofia da tradição. Desde Ser e Tempo, a aletheia é analisada em sua estrutura ambivalente. Enquanto aletheia, ela sempre mantém em si mesma uma indicação para o velamento, donde emerge o que se mostra, o que está não-velado, o desvelado. O reverso de a-letheia é o não-desvelamento. Na palavra a-letheia se insere, a partir da interpretação heideggeriana, o problema da negatividade e finitude. Pelo fato de o filósofo pensar o ser como a-letheia, introduz-se na sua ideia de ser o movimento da negatividade e finitude. Isto poderia conduzir, à primeira vista, para a convicção de que, em última instância, a reflexão de Heidegger não é estranha ao grande movimento da negatividade e finitude modernas que se estende de Hegel a Sartre. Mas, se tivermos presente a radicação do pensamento moderno na metafísica tradicional e se lembrarmos que, desde seu ponto de partida, o pensador se vê em oposição a ela, já previamente compreendemos a necessidade de distinguir a afirmação heideggeriana da finitude e negatividade das posições da tradição. Positivamente, a análise do problema, em Heidegger, deverá elucidar a questão da compreensão e finitude que ele desenvolve na analítica das estruturas circulares do ser-aí e no movimento da viravolta.
| Compreensão e Finitude I 4 |
A meditação sobre a aletheia auxilia particularmente a compreensão do problema da negatividade e da finitude na filosofia de Heidegger e, desse modo, do movimento fundamental que o separa da problemática homônima da filosofia da tradição. Desde Ser e Tempo, a aletheia é analisada em sua estrutura ambivalente. Enquanto aletheia, ela sempre mantém em si mesma uma indicação para o velamento, donde emerge o que se mostra, o que está não-velado, o desvelado. O reverso de a-letheia é o não-desvelamento. Na palavra a-letheia se insere, a partir da interpretação heideggeriana, o problema da negatividade e finitude. Pelo fato de o filósofo pensar o ser como a-letheia, introduz-se na sua ideia de ser o movimento da negatividade e finitude. Isto poderia conduzir, à primeira vista, para a convicção de que, em última instância, a reflexão de Heidegger não é estranha ao grande movimento da negatividade e finitude modernas que se estende de Hegel a Sartre. Mas, se tivermos presente a radicação do pensamento moderno na metafísica tradicional e se lembrarmos que, desde seu ponto de partida, o pensador se vê em oposição a ela, já previamente compreendemos a necessidade de distinguir a afirmação heideggeriana da finitude e negatividade das posições da tradição. Positivamente, a análise do problema, em Heidegger, deverá elucidar a questão da compreensão e finitude que ele desenvolve na analítica das estruturas circulares do ser-aí e no movimento da viravolta.
| Compreensão e Finitude I 4 |
Desde Ser e Tempo, Heidegger afirma que o ser é o nada dos entes. Sobretudo, o texto, Que é Metafísica? se debruça sobre o problema do nada procurando mostrar como, na angústia, o ser-aí experimenta o nada como o véu do ser. "O nada que designamos o ser". "Mas, esse nada se desdobra como o ser". "O que experimentamos no nada é o próprio ser", "para que o homem aprenda a experimentar o ser no nada". "O nada enquanto o outro com relação ao ente é o véu do ser". Essas primeiras afirmações se intensificam e desdobram por toda a obra do filósofo e todas as referências ao ser, em última instância, a elas se reduzem. Ser como recusa, retração, ausência, subtração, ocultamento, velamento e tantos outros vocábulos que apontam para essa dimensão centram-se na afirmação do ser enquanto nada. Toda essa "negatividade" deve ser vista a partir da intuição da a-letheia. O fato de o ser velar-se no nada decide também de sua finitude. "Ser e nada se copertencem, mas não porque ambos — sob o ponto de vista do conceito hegeliano de pensamento — se conformam, em sua indeterminação e imediatidade, mas, porque o próprio ser é finito em sua essência (sua manifestação fenomenológica) e somente se manifesta na transcendência do ser-aí exposto no nada". Heidegger afirma, portanto, desde muito cedo, que à finitude do ser se deve sua pertença ao nada. Mas essa finitude que leva o homem a experimentar o ser como o nada está ainda colocada aqui, ao menos externamente, no horizonte da interrogação transcendental.
| Compreensão e Finitude I 4 |
A finitude do ser se manifesta na ambivalência de velamento e desvelamento. Justamente, o fato de o ser sempre mostrar-se, apontando para aquilo que o vela, faz com que o ser sempre se manifeste de modo finito. O ser sempre aponta para o âmbito de onde emerge e que se oculta. Para isto conduz a palavra a-letheia à medida que ela sempre se vincula à lethe, que é a possibilidade de sua própria negação na a-letheia. Há dez anos, Heidegger fez uma declaração que nos faz compreender melhor essa finitude do ser. "Sim, ainda hoje diria que o ser é finito. Tudo depende de como se entende o conceito de ‘finito’. Entendo-o não como oposto a infinito, mas em sentido grego, como fechado em si mesmo, como aquilo pelo qual se diferencia do outro". Precisamente, essa ideia de finito é a que surge da palavra a-letheia. Nela, enquanto repousa na lethe como em sua origem, o ser se finitiza distinguindo-se dos entes. O ser como desvelamento se separa dos entes e, assim, pela diferença ontológica, se afirma como privação de desvelamento, isto é, como finito em sua manifestação. O ser é finito enquanto instaura o lugar finito onde se desvela e enquanto o desvelamento sempre se volta para o velado que, assim, se estabeleceu na finitude. O ser sempre será experimentado enquanto se manifesta na abertura finita, a qual sempre, por sua vez, se afirma como negação do velamento. Heidegger insiste nesse sentido, também em sua análise do problema da verdade. A não-verdade (o não-desvelamento) é apresentada como o âmbito ainda não experimentado da verdade do ser. O ser é finito precisamente porque o acesso a ele somente se faculta pelo desvelamento, o qual apresenta sempre o limite da manifestação de seu velamento.
| Compreensão e Finitude I 4 |
A finitude do ser se manifesta na ambivalência de velamento e desvelamento. Justamente, o fato de o ser sempre mostrar-se, apontando para aquilo que o vela, faz com que o ser sempre se manifeste de modo finito. O ser sempre aponta para o âmbito de onde emerge e que se oculta. Para isto conduz a palavra a-letheia à medida que ela sempre se vincula à lethe, que é a possibilidade de sua própria negação na a-letheia. Há dez anos, Heidegger fez uma declaração que nos faz compreender melhor essa finitude do ser. "Sim, ainda hoje diria que o ser é finito. Tudo depende de como se entende o conceito de ‘finito’. Entendo-o não como oposto a infinito, mas em sentido grego, como fechado em si mesmo, como aquilo pelo qual se diferencia do outro". Precisamente, essa ideia de finito é a que surge da palavra a-letheia. Nela, enquanto repousa na lethe como em sua origem, o ser se finitiza distinguindo-se dos entes. O ser como desvelamento se separa dos entes e, assim, pela diferença ontológica, se afirma como privação de desvelamento, isto é, como finito em sua manifestação. O ser é finito enquanto instaura o lugar finito onde se desvela e enquanto o desvelamento sempre se volta para o velado que, assim, se estabeleceu na finitude. O ser sempre será experimentado enquanto se manifesta na abertura finita, a qual sempre, por sua vez, se afirma como negação do velamento. Heidegger insiste nesse sentido, também em sua análise do problema da verdade. A não-verdade (o não-desvelamento) é apresentada como o âmbito ainda não experimentado da verdade do ser. O ser é finito precisamente porque o acesso a ele somente se faculta pelo desvelamento, o qual apresenta sempre o limite da manifestação de seu velamento.
| Compreensão e Finitude I 4 |
A finitude do ser se manifesta na ambivalência de velamento e desvelamento. Justamente, o fato de o ser sempre mostrar-se, apontando para aquilo que o vela, faz com que o ser sempre se manifeste de modo finito. O ser sempre aponta para o âmbito de onde emerge e que se oculta. Para isto conduz a palavra a-letheia à medida que ela sempre se vincula à lethe, que é a possibilidade de sua própria negação na a-letheia. Há dez anos, Heidegger fez uma declaração que nos faz compreender melhor essa finitude do ser. "Sim, ainda hoje diria que o ser é finito. Tudo depende de como se entende o conceito de ‘finito’. Entendo-o não como oposto a infinito, mas em sentido grego, como fechado em si mesmo, como aquilo pelo qual se diferencia do outro". Precisamente, essa ideia de finito é a que surge da palavra a-letheia. Nela, enquanto repousa na lethe como em sua origem, o ser se finitiza distinguindo-se dos entes. O ser como desvelamento se separa dos entes e, assim, pela diferença ontológica, se afirma como privação de desvelamento, isto é, como finito em sua manifestação. O ser é finito enquanto instaura o lugar finito onde se desvela e enquanto o desvelamento sempre se volta para o velado que, assim, se estabeleceu na finitude. O ser sempre será experimentado enquanto se manifesta na abertura finita, a qual sempre, por sua vez, se afirma como negação do velamento. Heidegger insiste nesse sentido, também em sua análise do problema da verdade. A não-verdade (o não-desvelamento) é apresentada como o âmbito ainda não experimentado da verdade do ser. O ser é finito precisamente porque o acesso a ele somente se faculta pelo desvelamento, o qual apresenta sempre o limite da manifestação de seu velamento.
| Compreensão e Finitude I 4 |
O nada e a finitude do ser são analisados positivamente. Não podem ser vistos, na perspectiva heideggeriana, como simples negação e imposição de limite. A positividade do nada e da finitude reside precisamente no fato de o ser somente assim poder ser experimentado em sua manifestação. Em A Doutrina de Platão sobre a Verdade, diz Heidegger: "Antes é preciso valorizar o ‘positivo’ na essência ‘privativa’ da aletheia. Antes deve ser experimentado esse elemento positivo como traço básico do próprio ser". Mais tarde ele explica: "Desvelamento é o traço básico daquilo que já se manifestou e que deixou atrás de si o velamento. Esse é, aqui, o sentido do alfa (a-) que somente foi caracterizado como alfa (a-) privativo numa gramática baseada no pensamento grego tardio". A negação de velamento tem o sentido positivo de afirmar o ser enquanto velamento. Essa afirmação do velamento que se dá mediante sua negação é o sentido positivo da a-letheia. A finitude que, assim, se apresenta aponta para trás, para o âmbito do velamento, onde se oculta sua própria possibilidade. A aletheia é privação de velamento. Mas, essa privação, vista a partir do velamento, é afirmação do velamento enquanto possibilidade do desvelamento.
| Compreensão e Finitude I 4 |
A negatividade heideggeriana não é a discursividade introduzida pela razão, nem é a glorificação da negatividade inserida na realidade pela consciência. Heidegger procura pensar o ser originariamente enquanto velamento e desvelamento e a negatividade (a-letheia) que, assim é afirmada, não é, nem grega simplesmente, nem cristã, nem hegeliana. Ela emerge da ideia de ser, enquanto nada. Somente o ser como o nada permite qualquer negação e sustenta qualquer negatividade dialética. Mas o próprio ser não pode ser pensado dialeticamente. Enquanto a negação da filosofia da tradição é sustentada pela finitude, a finitude heideggeriana é sustentada pelo nada enquanto véu do ser; é por isso que a finitude sempre permanece aquém e a caminho do nada e por ele envolta. É, assim, que Heidegger pode dizer que o ser é finito porque se manifesta na transcendência do ser-aí exposto ao nada.
| Compreensão e Finitude I 4 |
O pensamento fiel à imanência ontológica, à diferença imanente, que realiza uma ontologia da finitude que pensa o ser velado nos entes como o nada, não pode ser chamado o pensamento de uma ontologia negativa. Essa perspectiva não deixa de ser tentadora por causa de seu paralelismo com a teologia negativa da tradição. Mas, a negatividade e finitude pensadas por Heidegger, de nenhum modo conduzem a uma ontologia negativa. Elas apontam para a diferença imanente que sustenta a interrogação heideggeriana. Nessa diferença o velamento pertence necessariamente ao desvelamento, assim como à verdade necessariamente pertence a não-verdade. O ser jamais é experimentado na sua plenitude, mas, pelo contrário, ele somente se dá na ambivalência, na ruptura. Essa ambivalência e ruptura caracteriza o ser heideggeriano. A chave para compreender essa ambivalência e ruptura é a intuição de a-letheia. É através do sentido profundo da a-letheia que o ser sempre fica suspenso na diferença imanente, na diferença ontológica. Essa ruptura fundamental é, sem dúvida, a raiz da afirmação da finitude do pensamento de Heidegger. O ser, assim, se apresenta como finito e, dessa maneira, somente na finitude e no tempo pode ser experimentado. O ser na pura simplicidade de sua presença seria pensado na imagem do ente sempre presente, absoluto. Novamente se introduziria o modelo da teologia especulativa que, desde Aristóteles, permanece o ideal da perfeição da compreensão e do conhecimento. Pela negatividade e finitude Heidegger guarda fidelidade à diferença imanente permanecendo fiel ao mistério da manifestação fenomenológica do ser, na ruptura e na ambivalência.
| Compreensão e Finitude I 4 |
O pensamento fiel à imanência ontológica, à diferença imanente, que realiza uma ontologia da finitude que pensa o ser velado nos entes como o nada, não pode ser chamado o pensamento de uma ontologia negativa. Essa perspectiva não deixa de ser tentadora por causa de seu paralelismo com a teologia negativa da tradição. Mas, a negatividade e finitude pensadas por Heidegger, de nenhum modo conduzem a uma ontologia negativa. Elas apontam para a diferença imanente que sustenta a interrogação heideggeriana. Nessa diferença o velamento pertence necessariamente ao desvelamento, assim como à verdade necessariamente pertence a não-verdade. O ser jamais é experimentado na sua plenitude, mas, pelo contrário, ele somente se dá na ambivalência, na ruptura. Essa ambivalência e ruptura caracteriza o ser heideggeriano. A chave para compreender essa ambivalência e ruptura é a intuição de a-letheia. É através do sentido profundo da a-letheia que o ser sempre fica suspenso na diferença imanente, na diferença ontológica. Essa ruptura fundamental é, sem dúvida, a raiz da afirmação da finitude do pensamento de Heidegger. O ser, assim, se apresenta como finito e, dessa maneira, somente na finitude e no tempo pode ser experimentado. O ser na pura simplicidade de sua presença seria pensado na imagem do ente sempre presente, absoluto. Novamente se introduziria o modelo da teologia especulativa que, desde Aristóteles, permanece o ideal da perfeição da compreensão e do conhecimento. Pela negatividade e finitude Heidegger guarda fidelidade à diferença imanente permanecendo fiel ao mistério da manifestação fenomenológica do ser, na ruptura e na ambivalência.
| Compreensão e Finitude I 4 |
A ontologia da finitude, que pode ser desdobrada enquanto tal, a partir da concepção heideggeriana de a-letheia, e que somente pode ser compreendida a partir da estrutura circular da própria faticidade do ser-aí, em sua relação com o ser, abre o espaço para a experiência do ser na imanência fenomenológica. O ser é pensado à medida que se dá no âmbito anterior à reflexão transcendental, numa esfera antepredicativa. Na imanência fenomenológica o que se reserva ao pensamento é o acontecer do verso e reverso do ser em seu movimento de velamento e desvelamento. Nesse acontecer fenomenológico do ser, nesse dominar da ambivalência, que Heidegger procura captar de múltiplos modos, se abre o espaço em que se realizam os múltiplos ensaios do filósofo para captar o ser em instâncias privilegiadas como a linguagem, a arte, a coisa etc.
| Compreensão e Finitude I 4 |
A infinitude de um horizonte transcendental que se conduz pelo modelo de auto-transparência da noesis noeseos não atinge as dimensões de ser que se revelam nas coisas em sua concretude. Mas, precisamente nelas, numa esfera antepredicativa, já se dá uma manifestação do ser. Esse respeito fenomenológico pela palavra, pela obra de arte e pela coisa, que procura surpreendê-las em seu acontecer originário, sem violentá-las com a violência do juízo que as elevaria para a generalidade do ser, somente é possível onde se desenvolve uma fidelidade à diferença imanente. O juízo já transcende sempre a concreção e atinge o ser e os entes em sua generalidade. À medida que Heidegger penetra nessa concretude do acontecer antepredicativo ele atinge o ser em sua finitude e ambivalência de velamento e desvelamento. Quando o filósofo fala uma linguagem que parece tautológica ele pretende, precisamente, surpreender esse acontecer antepredicativo do ser. Assim, Heidegger diz, por exemplo: o mundo acontece como mundo (Die Welt weitet), a coisa acontece como coisa (Das Ding dingt), a linguagem fala (Die Sprache spricht). Ele não ultrapassa, com tais modos de dizer, a concretude do próprio acontecer. Mas, nesse acontecer se revela o ser em sua concretude de velamento e desvelamento. Cada acontecer fenomenológico é um desvelamento que aponta para o velamento de onde emergiu. A finitude e negatividade heideggerianas têm seu sentido originário nesse âmbito. Por isso mesmo, é flagrante sua diferença e distância do problema da finitude e negatividade do pensamento moderno que se desenvolvem no plano predicativo e no horizonte da consciência transcendental. Somente um pensamento que guarda fidelidade à diferença imanente tem abertos, para a sua reflexão, esses espaços antepredicativos em que o ser acontece originariamente. O modelo que leva Heidegger a todas essas análises é sempre o mesmo: a a-letheia em sua ambivalência e concretude.
| Compreensão e Finitude I 4 |
Essa finitude do ser e a negatividade heideggerianas se revelam na análise das palavras gregas: physis, logos e ousia. Também nelas como na palavra a-letheia, Heidegger descobre uma ambivalência de verso e reverso. Como vimos antes, o recíproco inclinar-se do velamento e desvelamento que se esconde em cada uma dessas palavras introduz uma verdadeira ideia de movimento ontológico no ser. A finitude e a negatividade surgem nesse movimento do ser, como velamento e desvelamento, na luta que se instaura entre o desvelar-se e o velar-se. Essa luta originária é o verdadeiro objeto da fenomenologia, em sua fidelidade à diferença imanente ou à diferença ontológica. O progressivo desvelar-se do ser, que sempre permanece ligado ao não-desvelamento, é a maturação (temporalização) do ser no tempo. Entretanto, o desvelamento do ser no tempo é, simultaneamente, o seu velamento. Heidegger o diz paradoxalmente: "Presença (ser) pertence à clareira do ocultar-se (tempo). Clareira do ocultar-se (tempo) produz presença (ser)". A manifestação do ser no tempo jamais permitirá seu desvelamento fenomenológico total. A fenomenologia permanece prisioneira da a-letheia em sua ambivalência. A luta entre velamento e desvelamento, entre o pertencer ao ocultar-se e o produzir presença, jamais se decide, nem em favor do ser, nem em favor do tempo. Nisso reside a ontologia da finitude de Heidegger e nisso se empenha seu pensamento. O filósofo designa essa luta originária de acontecimento-apropriação. Ser e tempo, ser e pensar, ser e homem, sustentam mutuamente sua finitude, sustentam a diferença ontológica, numa relação circular.
| Compreensão e Finitude I 4 |
Essa finitude do ser e a negatividade heideggerianas se revelam na análise das palavras gregas: physis, logos e ousia. Também nelas como na palavra a-letheia, Heidegger descobre uma ambivalência de verso e reverso. Como vimos antes, o recíproco inclinar-se do velamento e desvelamento que se esconde em cada uma dessas palavras introduz uma verdadeira ideia de movimento ontológico no ser. A finitude e a negatividade surgem nesse movimento do ser, como velamento e desvelamento, na luta que se instaura entre o desvelar-se e o velar-se. Essa luta originária é o verdadeiro objeto da fenomenologia, em sua fidelidade à diferença imanente ou à diferença ontológica. O progressivo desvelar-se do ser, que sempre permanece ligado ao não-desvelamento, é a maturação (temporalização) do ser no tempo. Entretanto, o desvelamento do ser no tempo é, simultaneamente, o seu velamento. Heidegger o diz paradoxalmente: "Presença (ser) pertence à clareira do ocultar-se (tempo). Clareira do ocultar-se (tempo) produz presença (ser)". A manifestação do ser no tempo jamais permitirá seu desvelamento fenomenológico total. A fenomenologia permanece prisioneira da a-letheia em sua ambivalência. A luta entre velamento e desvelamento, entre o pertencer ao ocultar-se e o produzir presença, jamais se decide, nem em favor do ser, nem em favor do tempo. Nisso reside a ontologia da finitude de Heidegger e nisso se empenha seu pensamento. O filósofo designa essa luta originária de acontecimento-apropriação. Ser e tempo, ser e pensar, ser e homem, sustentam mutuamente sua finitude, sustentam a diferença ontológica, numa relação circular.
| Compreensão e Finitude I 4 |
A finitude e a negatividade heideggerianas, entendidas em seu sentido profundo, através da a-letheia, revelam, em última análise, a relação entre ser e homem, ser e tempo, ser e pensamento. Essa relação se estabelece na diferença ontológica. O fato de essa diferença jamais poder ser superada na finitude, por meio de uma identidade, instaura, precisamente, essa ambivalência de velamento e desvelamento. O problema da identidade e diferença coloca a interrogação decisiva dentro do pensamento de Heidegger. Até que ponto uma ontologia da finitude pode responder a essa questão? Responde a isso a diferença ontológica imanente? O primeiro Heidegger pensa o velamento e desvelamento, a ambivalência da aletheia a partir do ser-aí, e a diferença ontológica é pensada a partir da circularidade da faticidade, a partir da transcendência finita. O segundo Heidegger pensa a circularidade do ser-aí e sua transcendência finita a partir da diferença ontológica instaurada pelo ser, como velamento e desvelamento. Heidegger sempre pensa a diferença ontológica, quer parta do ser-aí, quer parta do ser. Na analítica existencial ele procura pensar o ente privilegiado sem o qual nunca se pensa o ser e ao qual o ser sempre se dá na diferença ontológica. No pensamento posterior, ele pensa o ser, enquanto ser do ente, e o ente, enquanto ente do ser.
| Compreensão e Finitude I 4 |
A recíproca apropriação é o signo da finitude do ser e do homem. A mútua apropriação instaura o velamento e o desvelamento, portanto, a negatividade heideggeriana. Dessa recíproca apropriação surge a possibilidade da diferença ontológica como da própria constituição circular do ser-aí. A identidade que Heidegger pensa não é nada mais que a própria possibilidade da diferença. Na identidade o filósofo também procura pensar a diferença. É na copertença de ser e homem que se salva a diferença ontológica para a filosofia. Assim, a própria identidade heideggeriana é o âmbito originário em que mutuamente se dão o ser e o homem, o velamento e o desvelamento. Também a identidade é a afirmação da finitude. Também ela permanece na diferença imanente. Ela nada tem a ver com a identidade da metafísica ou a identidade do pensamento do idealismo especulativo. No pensamento de Heidegger identidade e diferença se copertencem, enquanto da identidade entre ser e pensar brota a diferença ontológica. A identidade entre ser e pensar (homem) é, justamente, a constituição circular da faticidade do ser-aí e essa circularidade possibilita o pensamento da diferença ontológica. O filósofo não rompe, portanto, o círculo da finitude. Permanece na ambivalência do velamento e desvelamento. Sustenta a finitude e negatividade presentes pela intuição original de a-letheia.
| Compreensão e Finitude I 4 |
Seguindo a palavra de ordem da fenomenologia, "às coisas em si mesmas", Heidegger procura o acesso às estruturas do ser-aí. Mas, "a coisa em si mesma", para a qual procura um caminho, não são as próprias estruturas do ser-aí, os existenciais simplesmente. Também conforme os princípios da fenomenologia, "cada coisa em si mesma" tem um modo privilegiado de acesso. Ao sentido do ser, pelo qual Heidegger interroga, tem-se privilegiadamente acesso através da analítica existencial, através do desvelamento das estruturas do ser-aí. Esses existenciais são, portanto, o caminho privilegiado, a estrada real, para a interrogação pelo ser. Mas, enquanto existenciais, eles são sempre formas ou modos de ser do ser-aí. Como formas eles se referem ao ser-aí em geral. O filósofo mesmo acena para essa generalidade dizendo que "a essência" do ser-aí reside em sua existência." Os existenciais formam a essência do ser-aí. Heidegger evidentemente não quer captar esses existenciais como as categorias; isto é, como puramente subsistentes. Mas, mesmo permanecendo fiel à distinção fundamental entre categorias e existenciais, ele não pode fugir à voragem do simples objetivismo, na análise fenomenológica dos existenciais, a não ser reduzindo-os à dimensão transcendental. Assim, a analítica do ser-aí é realizada no plano transcendental. E a analítica do ser-aí é realizada no plano transcendental, apesar de Heidegger visar, desde o início, à superação da dimensão transcendental da metafísica. Além de a analítica proceder de maneira transcendental, na descrição dos existenciais, ela visa a atingir neles o "simplesmente transcendens, que é o ser". Por isso, o pensador pode dizer que "cada revelação de ser enquanto o transcendens é conhecimento transcendental. "Verdade fenomenológica (abertura do ser) é veritas transcendentalis." Também nessa perspectiva revela-se a mesma realidade na reflexão heideggeriana sobre o problema do homem. O homem não se torna objeto da análise por motivos antropológicos, mas, por causa do problema do ser. Também a dimensão transcendental revela a finitude do ser-aí. "Também essa transcendência permanece ainda no âmbito da finitude." Fica, desse modo, explicitamente estabelecido que a preocupação de Heidegger com o ser-aí não visa a determinações antropológicas, nem afirmações ônticas sobre o homem, que quisessem dizer algo sobre finitude ou infinitude do homem no plano ôntico ou histórico. Consequentemente, torna-se necessário determinar mais detidamente o sentido da compreensão da finitude do ser-aí na filosofia de Heidegger. Essa elucidação poderá acrescentar, ao que até agora foi analisado, elementos novos, se situarmos o problema da finitude no horizonte das relações entre o homem e o ser, sob o ponto de vista da ambivalência de velamento e desvelamento. A partir dessa consideração se mostrará a importância, da a-letheia para a compreensão da finitude do ser-aí e sua relação com a questão da finitude da compreensão do ser.
| Compreensão e Finitude III 4 |
A finitude do ser-aí impõe-se a partir da ambivalência de velamento e desvelamento. Por que é que o homem somente atinge o ser mediante seu velamento nos entes? Por que o ser estabelece relação com o homem através de sua retração e sua retenção? Por que atinge o homem o ser apenas como a-letheia, isto é, como negação de velamento? A resposta somente pode ser uma: porque o homem limita a eclosão do ser, enquanto seu lugar de manifestação. Esse limitar significa que o homem se abre como a clareira do ser, em que o ser se vela, manifestando-se no ente cujo ser consiste em compreender o ser. No homem o ser se mostra, enquanto nele instaura uma abertura num ente que o compreende enquanto é ser e o vela enquanto é ente. Disso surge a ambivalência. Ela é introduzida pelo homem. Isto é a finitude do homem. A finitude do homem se compreende, portanto, como a relação que o homem instaura com o ser limitando-o em sua manifestação e velando-o. Por isso, o ser somente se dá como a-letheia. Na própria dimensão da aletheia reside a relação entre a finitude do ser-aí e o ser, o ser é, para o homem, em sua finitude, negação de velamento, permanecendo, enquanto tal, essencialmente ligado ao velamento. No ser-aí, enquanto preocupação e temporalidade, enquanto finitude, o ser jamais pode irromper na plena manifestação de seu velamento e seu próprio mostrar-se é simplesmente um mostrar para sua condição de velamento: aletheia. A finitude do ser-aí deve, portanto, ser compreendida como o fato de o ser-aí somente manifestar o ser velando-o, apontando para o velamento do ser. O ser-aí é, portanto, pensado e compreendido, como finitude, em função da finitude da compreensão do ser. O ser é finito porque é compreendido pelo ser-aí que é finito enquanto preocupação e temporalidade. Heidegger afirma, além disto, como já foi visto, que a marca da finitude do ser-aí se revela no fato de o homem somente poder conhecer os entes através da compreensão do ser. Por isso, a ontologia e o índice da finitude.
| Compreensão e Finitude III 4 |
A finitude do ser-aí impõe-se a partir da ambivalência de velamento e desvelamento. Por que é que o homem somente atinge o ser mediante seu velamento nos entes? Por que o ser estabelece relação com o homem através de sua retração e sua retenção? Por que atinge o homem o ser apenas como a-letheia, isto é, como negação de velamento? A resposta somente pode ser uma: porque o homem limita a eclosão do ser, enquanto seu lugar de manifestação. Esse limitar significa que o homem se abre como a clareira do ser, em que o ser se vela, manifestando-se no ente cujo ser consiste em compreender o ser. No homem o ser se mostra, enquanto nele instaura uma abertura num ente que o compreende enquanto é ser e o vela enquanto é ente. Disso surge a ambivalência. Ela é introduzida pelo homem. Isto é a finitude do homem. A finitude do homem se compreende, portanto, como a relação que o homem instaura com o ser limitando-o em sua manifestação e velando-o. Por isso, o ser somente se dá como a-letheia. Na própria dimensão da aletheia reside a relação entre a finitude do ser-aí e o ser, o ser é, para o homem, em sua finitude, negação de velamento, permanecendo, enquanto tal, essencialmente ligado ao velamento. No ser-aí, enquanto preocupação e temporalidade, enquanto finitude, o ser jamais pode irromper na plena manifestação de seu velamento e seu próprio mostrar-se é simplesmente um mostrar para sua condição de velamento: aletheia. A finitude do ser-aí deve, portanto, ser compreendida como o fato de o ser-aí somente manifestar o ser velando-o, apontando para o velamento do ser. O ser-aí é, portanto, pensado e compreendido, como finitude, em função da finitude da compreensão do ser. O ser é finito porque é compreendido pelo ser-aí que é finito enquanto preocupação e temporalidade. Heidegger afirma, além disto, como já foi visto, que a marca da finitude do ser-aí se revela no fato de o homem somente poder conhecer os entes através da compreensão do ser. Por isso, a ontologia e o índice da finitude.
| Compreensão e Finitude III 4 |
"O ser se retrai, enquanto se desvela no ente. Desse modo o ser se retém com sua verdade. Essa retenção é o modo primordial de seu desvelamento. O signo primordial da retenção é a a-letheia. À medida que traz desvelamento do ente, ela, primeiramente, funda o velamento do ser. Mas, o velamento permanece um traço (no movimento) da recusa que se retém. Podemos designar essa retenção iluminadora, com a verdade se seu acontecer fenomenológico, a epoche do ser [...] A época do ser pertence a ele próprio. Ela é pensada na experiência do esquecimento do ser. Da época do ser surge o acontecer fenomenológico de seu destino, onde reside a autêntica história do mundo. Sempre que o ser se retém em seu destino, acontece a manifestação súbita e inesperada do mundo. Cada época da história do mundo é uma época de errância. O acontecer fenomenológico, epocal, do ser, pertence ao caráter temporal velado do ser e caracteriza a essência do tempo pensado no ser. O que, além disso, se representa sob o nome de tempo é apenas a vazia aparência de tempo, tomado do ente que se julga objetivo".
| Compreensão e Finitude IV 3 |