Agamben - índice de extratos de algumas obras
 
 A-LETHEIA..............3
Nós estamos tão habituados a essa consideração unitária de todo “fazer” do homem como práxis que não nos damos conta de que ele poderia, no entanto, ser concebido – e foi concebido em outras épocas históricas – de modo diverso. Os gregos, a quem devemos quase todas as categorias através das quais julgamos a nós mesmos e a realidade que nos circunda, distinguiam, de fato, claramente entre poíesis (poieîn, pro-duzir, no sentido de agir) e prâxis (práttein, fazer, no sentido de agir). Enquanto no centro da práxis estava, como veremos, a ideia da vontade que se exprime imediatamente na ação, a experiência que estava no centro da poíesis era a pro-dução na presença, isto é, o fato de que, nela, algo viesse do não ser ao ser, da ocultação à plena luz da obra. O caráter essencial da poíesis não estava, portanto, no seu aspecto de processo prático, voluntário, mas no seu ser um modo da verdade, entendida como des-velamento, a-letheia. E era precisamente por essa sua essencial proximidade com a verdade que Aristóteles, que teoriza muitas vezes essa distinção no interior do “fazer” do homem, tendia a atribuir à poíesis um posto mais alto em relação à prâxis. A raiz da prâxis se fundava, de fato, segundo Aristóteles, na condição mesma do homem enquanto animal, ser vivente, e não era, portanto, outra coisa senão o princípio do movimento (a vontade, entendida como unidade de apetite, desejo e volição) que caracteriza a vida.HOMEM SEM CONTEÚDO
Na tradição da cultura ocidental, a distinção desse tríplice estatuto do “fazer” humano foi progressivamente se ofuscando. Aquilo que os gregos pensavam como poíesis é entendido pelos latinos como um modo do agere, isto é, como um agir que põe-em-obra, um operari. O ergon e a energeia, que, para os gregos, não tinham diretamente a ver com a ação, mas designavam o caráter essencial do estar na presença, tornam-se, para os romanos, actus e actualitas, isto é, são transpostos (tra-duzidos) para o plano do agere, da produção voluntária de um efeito. O pensamento teológico cristão, pensando o Ser supremo como actus purus, lega à metafísica ocidental a interpretação do ser como efetividade e ato. Quando esse processo se cumpre na época moderna, não há mais qualquer possibilidade de distinguir entre poíesis e prâxis, pro-dução e ação. O “fazer” do homem é determinado como atividade produtora de um efeito real (o opus do operari, o factum do facere, o actus do agere), cujo valor é apreciado em função da vontade que nela se exprime, e, portanto, em relação com a sua liberdade e a sua criatividade. A experiência central da poíesis, a pro-dução na presença, cede agora o lugar à consideração do “como”, isto é, do processo através do qual o objeto foi produzido. No que concerne à obra de arte, isso significa que o acento é deslocado daquilo que para os gregos era a essência da obra – isto é, o fato de que, nela, algo viesse ao ser a partir do não ser, abrindo, assim, o espaço da verdade (a-letheia) e edificando um mundo para a habitação do homem na terra –, ao operari do artista – isto é, ao gênio criativo e às particulares características do processo artístico em que ele encontra expressão.HOMEM SEM CONTEÚDO
Dessa ausência de conteúdo do primeiro conhecimento humano é possível, no entanto, outra interpretação. Que o primeiro conhecimento seja desprovido de conteúdo pode, de fato, significar que não é conhecimento de algo, mas de uma pura cognoscibilidade; que, conhecendo a nudez, não se conhece um objeto, mas apenas uma ausência de véus, apenas uma possibilidade de conhecer. A nudez, que os primeiros homens viram no Paraíso quando os seus olhos se abriram, é, portanto, abertura da verdade, da ilatência (a-letheia, “não ocultação”) que por si mesma torna possível o conhecimento. Não estarem mais cobertos pela veste de graça não revela a obscuridade da carne e do pecado, mas a luz da cognoscibilidade. Por trás da pressuposta veste de graça não há nada, e exatamente esse não ter nada por trás de si, sendo pura visibilidade e presença, é a nudez. E ver um corpo nu significa perceber a sua pura cognoscibilidade para além de qualquer segredo, para além ou aquém dos seus predicados objetivos.NUDEZ
 
 ABAIXO.................3
Nessa perspectiva, é possível que a escrita que se lê abaixo do vaso de flores, ignis ardens non comburens, que remete ao episódio da sarça ardente da Bíblia e, segundo os teólogos, simboliza a virgindade de Maria, possa ter sido inserida por Ticiano justamente para sublinhar o caráter peculiar do ato de criação, que queimava na superfície da tela, sem, todavia, se consumir, metáfora perfeita de uma potência que arde sem se exaurir.O FOGO E O RELATO
Acredito que, se tivesse tido conhecimento da frase de Celan sobre sua não saída do Egito, Avigdor teria compreendido. Para quem ficou no Egito, nem Jerusalém, a cidade de Davi, podia ser pátria. Por isso Celan, quando, num poema de 1968 ou 1969, invoca Jerusalém (“Levanta-te, Jerusalém, agora, ergue-te”), refere-se a si mesmo como a “quem rompeu os laços contigo” (o alemão é ainda mais forte: “wer das Band zerschnitt zu dir hin”, “arrancou de cima abaixo”). E Ilana Shmueli, ao lembrar a breve e intensa estada de Celan em Jerusalém, alguns meses antes de morrer, escreve: “Ele sabia que nem aqui podia pertencer, e isso o impressionou de forma bastante dolorosa, ele quase fugiu”.O FOGO E O RELATO
Acesos por um ardor divino, todos nós, que assinamos abaixo, entregamos a Deus e a ti, nosso senhor e pai, as nossas almas, para vivermos juntos num mesmo cenóbio, no exemplo de Cristo e em seu ensinamento, segundo o édito dos apóstolos e a regra, e segundo o que foi sancionado pela autoridade dos santos padres que nos precederam. Tudo o que pela salvação das nossas almas quiseres proclamar, ensinar, fazer, admoestar, mandar, excomungar e corrigir segundo a regra [annuntiare, docere, agere, increpare, imperare, excomunicare, secundum regulam emendare], tudo isso cumpriremos com a ajuda da graça divina em humildade de coração, renunciando a toda arrogância, com atenção e ardente desejo, sem buscar desculpas [inexcusabiliter] e com a aprovação de Deus. E se algum de nós murmurar contra a regra e teu comando, for contumaz, desobediente e caluniador [contra regulam et tuum praeceptum murmurans, contumax, inobediens vel calumniator], terás o poder de nos convocar todos juntos e, após ter lido a regra diante de todos, julgar publicamente a culpa, e cada um, convencido de seu delito, receberá as penas ou a excomunhão na proporção de sua culpa. E se, além disso, alguém de nós, contra a regra, urdir ocultamente e na ausência do abade nosso pai um complô com os parentes, os irmãos, os filhos, os cunhados ou outras relações ou, pior, com um irmão que mora com ele, então terás o poder de infligir a quem quer que tiver tentado esse crime a exclusão por seis meses da comunidade em cela escura, vestido com uma coberta ou um cilício, sem cinto nem calçado, alimentado apenas de pão e água. E se alguém não se submeter incondicionadamente a tal penitência, receberá sobre o corpo nu setenta e dois açoites e, deposto o hábito do mosteiro e envergada a veste que usava em seu ingresso, será expulso do cenóbio com grande vergonha.[159]ALTÍSSIMA POBREZA
 
 ABANDONO...............8
Eu, Papa Celestino V, movido por causas legítimas, isto é, em razão da humildade, de uma vida melhor e para manter íntegra minha consciência, por causa da fraqueza do corpo, da diminuição do conhecimento e da maldade do povo, pela enfermidade da pessoa e a fim de que possa reencontrar a quietude de minha consolação passada, espontânea e livremente abandono o pontificado e renuncio expressamente à sede, à dignidade, ao ônus e à honra e dou, ao sagrado Colégio dos Cardeais, plena e livre faculdade para eleger e prover, segundo os cânones, a Igreja católica de seu pastor.MISTÉRIO DO MAL
Nada manifesta melhor esse domínio do direito do que o declínio definitivo da ética cristã do amor como potência que une os homens. Mas com isso se trai também o abandono incondicionado de toda intenção messiânica por parte da Igreja de Cristo. Pois o messias é a figura na qual a religião se confronta com o problema da lei, e com esta chega a um acerto de contas decisivo. Tanto em âmbito hebraico, como em cristão ou xiita, o evento messiânico assinala, de fato, antes de tudo, uma crise e uma transformação radical da ordem propriamente legal da tradição religiosa. A velha lei (a Torá da criação), que valia até aquele momento, cessa de valer; mas, como é óbvio, não se trata simplesmente de substituí-la por uma nova lei, a qual contenha diferentes mandamentos e proibições, no entanto, substancialmente homogêneos na sua estrutura em relação aos precedentes. Daí provêm os paradoxos do messianismo, que Sabbatai Zewi exprimia dizendo: “O cumprimento da Torá é a sua transgressão” e Cristo (mais sobriamente do que Paulo) na fórmula: “Não vim dissolver [a lei], mas cumpri-[la]”.MEIOS SEM FIM
Esse abandono, esse esquecimento divino, é, para lá de todo castigo, a mais refinada das vinganças, aquela que o crente teme por ser a única irreparável, em face da qual o seu pensamento recua, aterrado : de fato, como será possível pensar aquilo de que a própria onisciência divina já não sabe nada, aquilo que foi apagado para todo o sempre da memória de Deus ? Daquele que é vítima desse abandono diz George Bernanos que está “nem absolvido nem condenado, note-se, mas perdido”.IDEIA DA PROSA
Esse abandono, esse esquecimento divino, é, para lá de todo castigo, a mais refinada das vinganças, aquela que o crente teme por ser a única irreparável, em face da qual o seu pensamento recua, aterrado : de fato, como será possível pensar aquilo de que a própria onisciência divina já não sabe nada, aquilo que foi apagado para todo o sempre da memória de Deus ? Daquele que é vítima desse abandono diz George Bernanos que está “nem absolvido nem condenado, note-se, mas perdido”.IDEIA DA PROSA
O maior castigo – a carência da visão de Deus – transforma-se assim em alegria natural : eles não sabem, nunca saberão, nada de Deus. E assim ficam, irremediavelmente perdidos, no abandono divino : não foi Deus que os esqueceu, foram eles que desde sempre já O esqueceram, e o esquecimento divino nada pode fazer contra o seu esquecimento. Nem bem-aventurados como os eleitos, nem desesperados como os condenados, carregam uma esperança sem saída possível.IDEIA DA PROSA
A maior punição – a carência da visão de Deus – se inverte assim em natural alegria : incuravelmente perdidos, eles se demoram sem dor no abandono divino. Não é Deus que os esqueceu, mas são eles que já sempre o olvidaram, e contra o seu olvido permanece impotente o esquecimento divino. Como cartas que permaneceram sem destinatário, esses ressuscitados permaneceram sem destino. Nem bem-aventurados como os eleitos, nem desesperados como os condenados, ele são plenos de uma alegria para sempre não destinável5.COMUNIDADE QUE VEM
Em outras palavras, se a autorreferência implica um excesso constitutivo da potência sobre cada realização no ato, é necessário a cada vez não esquecer que pensar corretamente a autorreferência implica, acima de tudo, a desativação e o abandono do dispositivo sujeito/objeto. No quadro de Velázquez ou de Ticiano, a pintura (a pictura picta) não é o objeto do sujeito que pinta (da pictura pingens), assim como na Metafísica, de Aristóteles, o pensamento não é o objeto do sujeito pensante, o que seria absurdo. Ao contrário, pintura da pintura significa somente que a pintura (a potência da pintura, a pictura pingens) é exposta e suspensa no ato da pintura, assim como poesia da poesia significa que a língua é exposta e suspensa no poema.O FOGO E O RELATO
A cesura que põe fim à redação da obra não lhe confere um estatuto privilegiado de completude: significa somente que se diz estar terminada a obra quando, mediante a interrupção ou o abandono, se constitui como que um fragmento de um processo criativo potencialmente infinito, em relação ao qual a obra, chamada de acabada, distingue-se da inacabada apenas acidentalmente.O FOGO E O RELATO
 
 ABEL...................1
2. Uma ambiguidade semântica tão difundida e constante não pode ser casual: ela deve refletir uma anfibologia inerente à natureza e à função do conceito de povo na política ocidental. Ou seja, tudo ocorre como se aquilo que chamamos de povo fosse, na realidade, não um sujeito unitário, mas uma oscilação dialética entre dois polos opostos: de um lado, o conjunto Povo como corpo político integral, de outro, o subconjunto povo como multiplicidade fragmentária de corpos necessitados e excluídos; ali uma inclusão que se pretende sem resíduos, aqui uma exclusão que se sabe sem esperanças; num extremo, o Estado total dos cidadãos integrados e soberanos, no outro, a reserva – corte dos milagres ou campo – dos miseráveis, dos oprimidos, dos vencidos que foram banidos. Um referente único e compacto do termo povo não existe, nesse sentido, em nenhum lugar: como muitos conceitos políticos fundamentais (semelhantes, nisso, aos Urworte de Carl Abel e Freud ou às relações hierárquicas de Dumont), povo é um conceito polar, o qual indica um duplo movimento e uma complexa relação entre dois extremos. Mas isso significa, também, que a constituição da espécie humana num corpo político passa por uma cisão fundamental e que, no conceito de povo, podemos reconhecer sem dificuldade os pares categoriais que vimos definir a estrutura política original: vida nua (povo) e existência política (Povo), exclusão e inclusão, zoé e bios. Ou seja, o povo já traz sempre em si a fratura biopolítica fundamental. Ele é aquilo que não pode ser incluído no todo do qual faz parte e não pode pertencer ao conjunto no qual já está desde sempre incluído.MEIOS SEM FIM
 
 ABELARDO...............3
Do que se arrependem os italianos? Começaram como membros de brigadas e mafiosos, e, desde então, assistimos a um desfile interminável de rostos torvos em sua convicção, decididos no seu próprio vacilar. Às vezes, no caso dos mafiosos, o rosto aparecia na sombra para impedir que fosse reconhecido e – como da sarça ardente – escutávamos “apenas uma voz”. Com essa voz profunda da sombra chama, nos nossos dias, a consciência, como se ele não conhecesse outra experiência ética fora do arrependimento. Precisamente aqui, no entanto, se trai a sua inconsistência, pois o arrependimento é a mais traiçoeira das categorias morais – aliás, não é nem mesmo certo se ela pertence à classe dos conceitos éticos genuínos. É conhecido o gesto decisivo com que Espinoza nega ao arrependimento todo direito de cidadania em sua Ética: quem se arrepende, ele escreve, é duas vezes infame, uma vez por ter cometido um ato do qual teve que se arrepender, e uma segunda vez porque se arrependeu dele. Mas quando, já no século XII, o arrependimento penetra com força na moral e na doutrina católica, logo se apresenta como um problema. Como provar, com efeito, a autenticidade do arrependimento? Aqui o campo logo se divide entre quem, como Abelardo, exigia apenas a contrição do coração, e os “penitenciais”, para os quais importante não era, ao contrário, a insondável disposição interior do arrependimento, como o cumprimento de inequívocos atos exteriores. Toda a questão, portanto, se envolveu imediatamente em um círculo vicioso, no qual os atos exteriores deviam atestar a autenticidade do arrependimento e a contrição interior, garantir a genuinidade das obras, segundo a mesma lógica para a qual, nos processos atuais, denunciar os companheiros é garantia da veracidade do arrependimento e o arrependimento íntimo sanciona a autenticidade da denúncia.MEIOS SEM FIM
1.5. É a partir dessa tensão entre privado e comum, entre eremitério e cenóbio, que parece ter sido elaborada a curiosa articulação tripartite ou quadripartite dos genera monachorum [gêneros de monastérios], que se encontra em Jerônimo[30], em Cassiano[31], na longa digressão no início da Regra do mestre, em Bento, e, de maneiras diversas, em Isidoro, João Clímaco, Pedro Damião e Abelardo, chegando aos textos dos canonistas. O sentido dessa articulação, que depois de ter distinguido os cenobitas, in commune viventes [os que vivem em comunidade], dos anacoretas, qui soli habitant per desertum [que moram sozinhos no deserto], opõe a estes, como gênero “detestável e imundo”, os sarabaítas (e, na variante quadripartite, que se torna canônica a partir da Regra do mestre e da regra beneditina, os andarilhos), é esclarecido unicamente se compreendermos que está em questão não tanto a oposição entre solidão e vida comum, mas sim aquela, por assim dizer “política”, entre ordem e desordem, governo e anarquia, estabilidade e nomadismo. Já em Jerônimo e Cassiano, o “terceiro gênero” (qualificado como teterrimum, deterrimum ac infidele [o mais detestável, o mais baixo e incrédulo]) define-se mediante o fato de que eles “vivem juntos em dois ou três, a seu arbítrio e comando [suo arbitratu ac ditione]” e “não suportam ser governados pelo cuidado e poder do abade [abbatis cura atque imperio gubernari]”. “Para eles”, reitera a Regra do mestre, “o arbítrio dos desejos vale como lei” (“pro lege eis est desideriorum voluntas”)[32]; eles vivem “sem serem colocados à prova por nenhuma regra” (“nulla regula adprobati”)[33].ALTÍSSIMA POBREZA
O sentido de forma é, nesse caso, “exemplo, paradigma”; mas a lógica do exemplo não é de modo algum simples, e não coincide com a aplicação de uma lei universal[12]. Forma vitae designa, nesse sentido, um modo de vida que, ao aderir estreitamente a uma forma ou modelo, de que não pode ser separado, se constitui por isso mesmo como exemplo (leia-se em Bernardo de Claraval, Contra quaedam capitula errorum Abelardi [Contra alguns capítulos dos erros de Abelardo], capítulo 17: “[Christus] ut traderet hominibus formam vitae vivendo […] [para que transmitisse aos homens o exemplo de vida a ser vivida]”).ALTÍSSIMA POBREZA
 
 ABERTA.................9
O surgimento das poéticas da obra aberta e do work-in-progress, que se fundam em um estatuto não energético, mas dinâmico da obra de arte, significa precisamente esse momento extremo do exílio da obra de arte da sua própria essência, o momento em que – tornada pura potencialidade, o mero ser-disponível em si e para si – ela assume conscientemente, sobre si mesma, a própria impotência em se possuir no fim. Obra aberta significa : obra que não se possui no próprio eidos como no próprio fim, obra que não está jamais em obra, isto é : (se é verdade que obra é energeia) : não obra, dynamis, disponibilidade e potência.HOMEM SEM CONTEÚDO
O surgimento das poéticas da obra aberta e do work-in-progress, que se fundam em um estatuto não energético, mas dinâmico da obra de arte, significa precisamente esse momento extremo do exílio da obra de arte da sua própria essência, o momento em que – tornada pura potencialidade, o mero ser-disponível em si e para si – ela assume conscientemente, sobre si mesma, a própria impotência em se possuir no fim. Obra aberta significa : obra que não se possui no próprio eidos como no próprio fim, obra que não está jamais em obra, isto é : (se é verdade que obra é energeia) : não obra, dynamis, disponibilidade e potência.HOMEM SEM CONTEÚDO
Precisamente enquanto é no modo da disponibilidade para… e joga mais ou menos conscientemente com o estatuto estético da obra de arte como mera disponibilidade para a fruição estética, a obra aberta não constitui uma superação da estética, mas apenas uma das formas do seu acabamento, e é apenas negativamente que ela pode apontar para além da estética.HOMEM SEM CONTEÚDO
Do mesmo modo, ready-made e pop-art – que jogam, pervertendo-o, com o dúplice estatuto da atividade produtiva do homem no nosso tempo – estão, também eles, no modo da dynamis, e de uma dynamis que não pode jamais possuir-se-no-fim ; mas, exatamente enquanto – subtraindo-se tanto à fruição estética da obra de arte quanto ao consumo do produto técnico – realizam ao menos por um instante uma suspensão dos dois estatutos, eles levam muito mais longe do que a obra aberta a consciência da dilaceração e se apresentam como uma verdadeira e própria disponibilidade-para-o-nada. Como, de fato – não pertencendo propriamente nem à atividade artística, nem à produção técnica –, pode-se dizer que nada neles vem, na realidade, à presença, assim, não se oferecendo eles, em sentido próprio, nem ao gozo estético, nem ao consumo, pode-se dizer que, no caso deles, disponibilidade e potência são voltadas para o nada e, desse modo, conseguem verdadeiramente possuir-se-no-fim.HOMEM SEM CONTEÚDO
Em uma das Teses sobre a filosofia da história, Benjamin descreveu em uma imagem particularmente feliz essa situação do homem que perdeu a ligação com o próprio passado e não consegue mais reencontrar a si mesmo na história. “Há um quadro de Klee”, escreve Benjamin, “que se intitula Angelus Novus. Nele se encontra um anjo que parece se distanciar de alguma coisa sobre a qual fixa o olhar. Ele tem os olhos arregalados, a boca aberta, as asas estendidas. O anjo da história tem que ter esse aspecto. Ele tem o rosto voltado para o passado. Onde aparece para nós uma cadeia de eventos, ele vê uma só catástrofe, que acumula sem trégua ruína sobre ruína e as lança aos seus pés. Ele bem que gostaria de se deter, despertar os mortos e recompor o despedaçado. Mas uma tempestade sopra do paraíso e se prendeu nas suas asas, e é tão forte que ele não pode fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele volta as costas, enquanto o acúmulo de ruínas sobe diante dele até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso”.HOMEM SEM CONTEÚDO
Qual é, à luz crepuscular dos Comentários, o cenário que a política mundial está desenhando sob os nossos olhos? O Estado espetacular integrado (ou democrático-espetacular) é o estágio extremo na evolução da forma-Estado, em direção ao qual se destroem impetuosamente monarquias e repúblicas, tiranias e democracias, regimes racistas e regimes progressistas. Esse movimento global, no próprio instante em que parece dar novamente vida às identidades nacionais, traz em si, na realidade, a tendência rumo à constituição de uma espécie de Estado supranacional de polícia, no qual as normas do direito internacional são uma após a outra tacitamente abolidas. Não só há anos nenhuma guerra é mais declarada (realizando assim a profecia de Schmitt, segundo a qual toda guerra se tornaria no nosso tempo uma guerra civil), mas até mesmo a invasão aberta de um Estado soberano pode ser apresentada como a execução de um ato de jurisdição interna. Os serviços secretos, habituados desde sempre a agirem ignorando as fronteiras das soberanias nacionais, tornam-se, nessas condições, o modelo da organização e da ação política real. Pela primeira vez na história do nosso século, as duas maiores potências mundiais são governadas por duas emanações diretas dos serviços secretos: Bush (ex-chefe da CIA) e Gorbatchev (o homem de Andropov); e quanto mais eles concentram todo o poder em suas mãos, tanto mais isso é saudado, no novo percurso do espetáculo, como uma vitória da democracia. Apesar das aparências, a organização democrático-espetacular-mundial que vai, portanto, se delineando corre o risco de ser, na realidade, a pior tirania que jamais se viu na história da humanidade, em relação à qual resistência e dissenso serão, de fato, sempre mais difíceis, tanto mais que, agora sempre mais claramente, ela terá a tarefa de gerir a sobrevivência da humanidade em um mundo habitável pelo homem. Não é dito, no entanto, que a tentativa do espetáculo de manter o controle do processo, que ele mesmo contribuiu para pôr em movimento, seja destinada a ter êxito. O Estado espetacular permanece, apesar de tudo, um Estado que, como todo Estado, se funda (como mostrou Badiou) não em um laço social, do qual seria a expressão, mas na sua dissolução, que proíbe. Em última instância, o Estado pode reconhecer qualquer reivindicação de identidade – até mesmo (a história das relações entre Estado e terrorismo, no nosso tempo, é sua eloquente confirmação) aquela de uma identidade estatal no seu interior; mas que singularidades façam comunidade sem reivindicar uma identidade, que homens copertençam sem uma condição de pertencimento representável (ser italiano, operários, católicos, terroristas…), eis aquilo que o Estado não pode em nenhum caso tolerar. Entretanto, é o mesmo Estado espetacular, enquanto nulifica e esvazia de conteúdo toda identidade real e substitui o povo e a vontade geral pelo público e pela sua opinião, que produz massivamente a partir de seu seio algumas singularidades que não são mais caracterizadas por nenhuma identidade social nem por nenhuma condição real de pertencimento: singularidades realmente quaisquer. Pois é certo que a sociedade do espetáculo é, também, aquela na qual todas as identidades sociais se dissolveram, na qual tudo aquilo que por séculos constituiu o esplendor e a miséria das gerações que se sucederam sobre a terra agora perdeu todo significado. Na pequena burguesia planetária, em cuja forma o espetáculo realizou de modo paródico o projeto marxiano de uma sociedade sem classes, as diferentes identidades que marcaram a tragicomédia da história universal estão expostas e recolhidas numa vacuidade fantasmagórica.MEIOS SEM FIM
Em qualquer parte dentro de nós o distraído rapazinho neotênico continua o seu jogo real. E é esse seu jogo que nos dá tempo, que mantém aberta para nós essa não latência inultrapassável que os povos e as línguas da terra, cada um a seu modo, se preocupam em conservar e diferir – e em conservar apenas na medida em que a diferem. As diversas nações e as muitas línguas históricas são as falsas vocações com as quais o homem tenta responder à sua insuportável ausência de voz ; ou, se quisermos, as tentativas, fatalmente condenadas ao fracasso, de tornar apreensível o inapreensível, de tornar adulta a eterna criança. Só no dia em que essa originária não latência infantil fosse verdadeiramente, vertiginosamente, assumida como tal, em que se recuperasse o tempo e o menino Aion fosse distraído do seu jogo, os homens poderiam construir uma história e uma língua universais, já não diferíveis, e pôr fim à sua errância nas tradições. Esse autêntico apelo da humanidade em relação ao soma infantil tem um nome : o pensamento, ou seja, a política.IDEIA DA PROSA
As almas dos homens chegam de toda parte ao tribunal, mas o banco dos réus já está todo ocupado. São convidadas a sentar-se no banco dos jurados, ou sentam-se, ruidosamente, em grupos, entre o público. Quando uma sineta anuncia a entrada dos juízes, o culpado, que, entretanto, enfiou sorrateiramente a borla e a toga, sobe precipitadamente para a cadeira do juiz. Mas, assim que declara aberta a audiência, deita fora a toga e desce até o banco da acusação pública e depois até o da defesa. Nos intervalos da sessão volta a sentar-se, com a alma a sangrar, no banco dos réus.IDEIA DA PROSA
É certo que a contemplação de uma potência pode dar-se somente numa obra; mas, na contemplação, a obra é desativada e tornada inoperante e, desse modo, restituída à possibilidade, aberta para um novo uso possível. Verdadeiramente poética é a forma de vida que, em sua própria obra, contempla sua potência de fazer e de não fazer e nela encontra a paz. Um ser vivo nunca pode ser definido por sua obra, mas somente pela sua inoperosidade, ou seja, pela maneira como, ao manter-se, numa obra, em relação com uma pura potência, se constitui como forma-de-vida, em que não estão mais em questão nem a vida nem a obra, mas a felicidade. A forma-de-vida é o ponto em que o trabalho numa obra e o trabalho sobre si coincidem perfeitamente. E o pintor, o poeta, o pensador – e, em geral, qualquer um que pratique uma “arte” e uma atividade – não são os sujeitos soberanos titulares de uma operação criativa e de uma obra; são, antes, viventes anônimos que, contemplando e tornando a cada vez inoperantes as obras da linguagem, da visão e dos corpos, procuram ter a experiência de si e manter-se em relação com uma potência, isto é, constituir sua vida como forma-de-vida. Somente neste ponto obra e Grande Obra, o ouro metálico e o ouro dos filósofos podem identificar-se sem resíduos.O FOGO E O RELATO