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Comunicação

Os problemas filosóficos aos quais conduz a idéia de uma ciência positiva da comunicação parecem ser a princípio àqueles de uma teoria do conhecimento. Com efeito, de qualquer maneira que visualizemos uma experiência psíquica ou as leis de tipo lógico-matemático da comunicação, elas implicam em uma pressuposição epistemológica: a possibilidade para um sujeito de não ser limitado ao "conteúdo" da consciência interna, de poder se pronunciar sobre um acordo entre as consciências. Como esta saída de si, este acordo, são possíveis? Há talvez uma interrogação existencial concernente à possibilidade e à profundidade de toda comunicação humana; mas antes de nos pôr esta questão: "uma verdadeira comunicação é possível?", partindo de uma experiência corrente da comunicação depositada na linguagem, exigida pelas disciplinas como a sociologia ou a história, devemos nos questionar como esta comunicação trivial, que parece se dar por si mesma, é possível. (René Scherer)

Muniz Sodré

  • "Muitos dizem que a comunicação não tem objeto. Eu acho que tem. Para mim hoje é claro. Isso é, na verdade, o assunto do meu próprio livro a ser lançado pela Editora Vozes e que tem sido tema das minhas aulas e pesquisas nos últimos dois anos, que é uma teoria da comunicação. Eu acho que o objeto da comunicação é a vinculação social. É como se dá o vínculo, a atração social, como é que as pessoas se mantêm unidas, juntas socialmente". (Entrevista de Muniz SODRÉ a Desirée RABELO da Universidade Metodista de São Paulo, Brasil)

  • "Então no campo da comunicação para mim tem três setores ou instâncias: da vinculação; da relação e da cognição, que significa como é que eu conheço, como é que eu sei sobre a relação ou a vinculação". (Entrevista de Muniz SODRÉ a Desirée RABELO da Universidade Metodista de São Paulo, Brasil)

O efeito Zapping - Machado, A.

De início, há o zapping e também há o zipping. Zapping é a mania que tem o telespectador de mudar de canal a qualquer pretexto, na menor queda de ritmo ou de interesse do programa e, sobretudo, quando entram os comerciais. Zipping, por sua vez, é o hábito de fazer correr velozmente a fita de vídeo durante os comerciais em programas gravados em videocassetes. Com a proliferação do controle remoto, zapa-se e zipa-se para lá e para cá com a maior facilidade, entre outras coisas, como forma de driblar os intervalos comerciais. As redes de televisão e as agências de publicidade respondem, em vingança, generalizando o recurso do in script ad (comercial inserido dentro do programa), isso que no Brasil se conhece pelo nome mais genérico de merchandising. A programação televisual torna-se, em conseqüência e cada vez mais, um imenso e infinito jingle comercial. Inova-se na técnica do anúncio publicitário, produzindo spots cada vez mais curtos, cada vez mais rápidos, até o nível da propaganda subliminar, conforme o modelo da tirânica rede televisual de Max Headroom. Mas tudo isso só faz acelerar ainda mais a freqüência do zapping e do zipping, transformando aquilo que era originalmente apenas álibi do telespectador em fúria rastreadora, impaciência abissal em relação a qualquer vestígio de duração e continuidade, verdadeira obsessão pelo corte, pelo deslocamento e trituração de tudo o que é homogêneo.

(...)

Já faz um bom tempo que a prática do zapping deixou de responder apenas às prerrogativas comerciais da televisão. Zapa-se agora indiscriminadamente tanto em spots publicitários como em programas de estúdio, filmes ou transmissões esportivas. Zapa-se a pretexto de tudo e de qualquer coisa. O espectador de televisão não mais assiste a programas inteiros, nem acompanha mais histórias completas. Ele salta continuamente, fazendo -amarrar-, de forma desconcertante, as imagens da repressão na África do Sul, com a cena de alcova numa telenovela ou o anúncio sobre as virtudes de um creme dental (procedimento conhecido como flipping). Às vezes, ele assiste a dois ou três canais ao mesmo tempo (grazing), saltando para lá e para cá, num jogo de comutação que nem precisa mais de uma justificativa baseada no interesse ou na sedução, mas que tende a ser cada vez mais aleatório, busca frenética e sempre insaciável da surpresa ou da diferença. E quanto mais aumentam as opções (cabo, satélite, subscrição etc.), mais aumentam as chances de zapar e de ampliar o leque de fragmentos.

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Certamente, já se zapava em outros tempos e antes mesmo do controle remoto e da televisão. O leitor do livro sempre zapou secretamente, fazendo uma leitura interesseira, seletiva e até mesmo "atravessada" desse objeto todavia tirânico em matéria de linearidade: o romance. Ainda no Ottocento, Machado de Assis sugeria a seus leitores que pulassem alguns capítulos, que voltassem atrás ou mesmo que mudassem de romance ou de autor. O ouvinte de gravações musicais também vem se acostumando progressivamente à fruição descontínua e fragmentária, possibilitada pelos recursos de manipulação dos aparelhos de gravação e reprodução sonoras. Na primeira metade do século, Armand Robin e John Cage praticaram o zapping em termos de recepção radiofônica, o primeiro com seus dispositivos de escuta internacional e o segundo em seus "concertos" para o botão de sintonização. Quem viaja de automóvel dotado de auto-rádio zapa o tempo todo, girando febrilmente o dial nos dois sentidos, num ritmo diretamente proporcional aos níveis de informação e exigência do ouvinte. Durante o período de efervescência do movimento das rádios livres na Europa, a quantidade de emissoras que se encavalavam no ar era tão elevada que nem sequer era necessário girar o botão do dial, bastando apenas fazer deslocar o carro pelas ruas das grandes metrópoles para que se produzisse naturalmente o efeito zapping no auto-rádio.

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Mas nunca se zapou em tal intensidade e com tantas conseqüências como na era da televisão, a ponto de só agora o fenômeno se tornar suficientemente perceptível para demandar análise. As razões são variadas e não devem se restringir apenas à facilidade técnica do controle remoto e à simultaneidade de opções decorrente da divisão institucional do espectro eletromagnético em faixas de onda. É preciso considerar também que o zapping surgiu, originalmente, como uma resposta do telespectador à mediocridade instalada na televisão, um gesto de resistência contra o rolo compressor da uniformidade audiovisual, na tentativa - nem sempre bem sucedida - de escapar ao contágio anestesiante da economia televisual. Ao fluxo contínuo e infinito de imagens pasteurizadas no tubo catódico, o telespectador contra-atacava, fazendo introduzir o corte, a diferença, a decisão, quem sabe um pouco de sentido. "Zapar, até há um ano, era introduzir um pouco de oxigênio no coração da asfixia, era multiplicar o mesmo pelo mesmo para obter o fantasma de alguma outra coisa, de um real perdido, de um encontro sempre possível. ... O zapping era, enfim, a resposta mais simples à tirania idiota dos índices de audiência" (Daney, 1988:15).

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