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Cultura

Damatta - Um ensaio sobre a distinção entre indivíduo e pessoa

Em DAMATTA, Roberto (1997), Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro, Rocco.

A idéia de indivíduo recebeu duas elaborações distintas. Numa delas, como acabamos de ver, tomou-se a sua vertente mais individualizante, dando-se ênfase ao "eu individual", repositório de sentimentos, emoções, liberdade, espaço interno, capaz portanto de pretender a liberdade e a igualdade, sendo a solidão e o amor dois de seus traços básicos (cf. Viveiros de Castro a Benzaquem de Araújo, 1977), e o poder de optar e escolher, um dos seus direitos mais fundamentais. Nessa construção - que corresponde à construção ocidental -, a parte é, de fato, mais importante do que o todo. E a noção geral, universalmente aceita, é a de que a sociedade deve estar a serviço do indivíduo, o contrário sendo uma injustiça que importa corrigir.

Outra vertente importante do indivíduo natural ou empiricamente dado é a elaboração do seu pólo social. Aqui, a vertente desenvolvida pela ideologia não é mais a da igualdade paralela de todos, mas da complementaridade de cada um para formar uma totalidade que só pode ser constituída quando se tem todas as partes. Em vez de termos a sociedade contida no indivíduo, temos o oposto: o indivíduo contido e imerso na sociedade. É essa vertente que corresponde à noção de pessoa como entidade capaz de remeter ao todo, e não mais à unidade, e ainda como o elemento básico por meio do qual se cristalizam relações essenciais a complementares do universo social.

Como se observa, as duas noções são básicas, a ambas são largamente utilizadas em todas as sociedades humanas. Ocorre apenas que a noção de indivíduo como unidade isolada e auto contida foi desenvolvida no Ocidente, ao passo que nas sociedades holísticas, hierarquizantes a tradicionais, a noção de pessoa é dominante. Mas - e esse ponto é importante - as duas noções estão sempre presentes, e de fato existe uma dialética entre elas.

A noção de pessoa pode então ser sumariamente caracterizada como uma vertente coletiva da individualidade, uma máscara colocada em cima do indivíduo ou entidade individualizada (linhagem, c1ã, família, metade, clube, associação etc.) que desse modo se transforma em ser social. Quando a sociedade atribui máscaras e elementos que deseja incorporar no seu bojo, o faz por meio de rituais, penetrando por assim dizer essa coisa que deve ser convertida em algo socialmente significativo. Isso equivale a tomar algo que antes era empiricamente dado (algo natural), como uma criança, uma árvore, um pedaço de pedra, uma casa recém-construída, para elaborar uma relação essencial, ideologicamente marcada. É essa operação que faz o elemento tornar-se pessoa ou ser social. Nas sociedades tribais, por exemplo, a transformação da criança em pessoa implica uma série de etapas ritualmente marcadas, envolvendo quase sempre a ação física: perfuração das orelhas, dos lábios (cf. Seeger, 1975), do septo nasal etc. É como se a totalidade estivesse penetrando o elemento individualizado, para, o momento mesmo dessa penetração, liquidar de vez com seu espaço interno, incorporando-o definitivamente à coletividade e à totalidade. Assim, explica-se melhor, creio, a razão do estado liminar ou marginal (cf. Van Gennep, 1978; Turner, 1967) dos noviços. É que eles são, primeiramente, individualizados, e como nas formações sociais tribais o indivíduo é, em geral, perigoso a por isso mesmo controlado, os noviços têm de ser expulsos da coletividade para depois serem nela incorporados, já agora como figuras complementares a como partes de uma totalidade que tem com eles uma relação essencial ou substantiva.

Clifford Geertz

Geertz, C. - A Interpretação das Culturas


O aperfeiçoamento das ferramentas, a adoção da caça organizada a as práticas de reunião, o início da verdadeira organização familiar, a descoberta do fogo e, o mais importante, embora seja ainda muito difícil identificá-la em detalhe, o apoio cada vez maior sobre os sistemas de símbolos significantes (linguagem, arte, mito, ritual) para a orientação, a comunicação e o autocontrole, tudo isso criou para o homem um novo ambiente ao qual ele foi obrigado a adaptar-se. A medida que a cultura, num passo a passo infinitesimal, acumulou-se a se desenvolveu, foi concedida uma vantagem seletiva àqueles indivíduos da população mais capazes de levar vantagem - o caçador mais capaz, o colhedor mais persistente, o melhor ferramenteiro, o líder de mais recursos - até que o que havia sido o Australopiteco proto-humano, de cérebro pequeno, tornou-se o Homo sapiens, de cérebro grande, totalmente humano. Entre o padrão cultural, o corpo e o cérebro foi criado um sistema de realimentação (feedback) positiva, no qual cada um modelava o Progresso do outro, um sistema no qual a interação entre o use crescente das ferramentas, a mudança da anatomia da mão e a representação expandida do polegar no córtex é apenas um dos exemplos mais gráficos. Submetendo-se ao governo de programas simbolicamente mediados para a produção de artefatos, organizando a vida social ou expressando emoções, o homem determinou, embora inconscientemente, os estágios culminantes do seu próprio destino biológico. Literalmente, embora inadvertidamente, ele próprio se criou. Conforme mencionei, apesar de terem ocorrido algumas mudanças importantes na anatomia bruta do gênero Homo durante esse período de sua cristalização - na forma do crânio, na dentição, no tamanho do polegar, a assim por diante - as mudanças muito mais importantes a dramáticas foram as que tiveram lugar, evidentemente, no sistema nervoso central. Esse foi o período em que o cérebro humano, principalmente sua parte anterior, alcançou as pesadas proporções atuais. Os problemas técnicos são aqui complicados a controvertidos; todavia, o ponto central é que, embora os Australopitecíneos tivessem um torso a uma configuração de braço não drasticamente diferente da nossa, a uma formação do pélvis a da perna antecipadora da nossa própria, a capacidade craniana era pouco maior do que a dos macacos - o que quer dizer, de um terço a metade da nossa. O que separa, aparentemente, os verdadeiros homens dos proto-homens não é, aparentemente, a forma corpórea total, mas a complexidade da organização nervosa. O período superposto de mudança cultural a biológica parece ter consistido numa intensa concentração do desenvolvimento neural a talvez, associados a ela, o refinamento de comportamentos diversos - das mãos, da locomoção bípede, etc. - para as quais os fundamentos anatômicos básicos - ombros e pulsos móveis, um ílio alargado, etc. - já haviam sido antecipados. Isso talvez não seja marcante em si mesmo, mas, combinado ao que dissemos anteriormente, sugere algumas conclusões sobre a espécie de animal que o homem é, as quais, penso, estão muito afastadas não apenas das que surgiram no século XVIII, mas também das da antropologia de apenas dez ou quinze anos atrás.

Grosso modo, isso sugere não existir o que chamamos de natureza humana independente da cultura. Os homens sem cultura não seriam os selvagens inteligentes de Lord of the Flies, de Golding, atirados à sabedoria cruel dos seus instintos animais; nem seriam eles os bons selvagens do primitivismo iluminista, ou até mesmo, como a antropologia insinua, os macacos intrinsecamente talentosos que, por algum motivo, deixaram de se encontrar. Eles seriam monstruosidades incontroláveis, com muito poucos instintos úteis, menos sentimentos reconhecíveis a nenhum intelecto: verdadeiros casos psiquiátricos. Como nosso sistema nervoso central - e principalmente a maldição e glória que o coroam, o neocórtex - cresceu, em sua maior parte, em interação com a cultura, ele é incapaz de dirigir nosso comportamento ou organizar nossa experiência sem a orientação fornecida por sistemas de símbolos significantes. O que nos aconteceu na Era Glacial é que fomos obrigados a abandonar a regularidade e a precisão do controle genético detalhado sobre nossa conduta em favor da flexibilidade a adaptabilidade de um controle genético mais generalizado sobre ela, embora não menos real. Para obter a informação adicional necessária no sentido de agir, fomos forçados a depender cada vez mais de fontes culturais - o fundo acumulado de símbolos significantes. Tais símbolos são, portanto, não apenas simples expressões, instrumentalidade ou correlatos de nossa existência biológica, psicológica a social: eles são seus pré-requisitos. Sem os homens certamente não haveria cultura, mas, de forma semelhante a muito significativamente, sem cultura não haveria homens. Somando tudo isso, nós somos animais incompletos a inacabados que nos completamos a acabamos através da cultura - não através da cultura em geral, mas através de formas altamente particulares de cultura: dobuana a javanesa, Hopi a italiana, de classe alta a classe baixa, acadêmica a comercial. A grande capacidade de aprendizagem do homem, sua plasticidade, tem sido observada muitas vezes, mas o que é ainda mais crítico é sua extrema dependência de uma espécie de aprendizado: atingir conceitos, a apreensão a aplicação de sistemas específicos de significado simbólico. Os castores constroem diques, os pássaros constroem ninhos, as abelhas localizam seu alimento, os babuínos organizam grupos sociais a os ratos acasalam-se à base de formas de aprendizado que repousam predominantemente em instruções codificadas em seus genes a evocadas por padrões apropriados de estímulos externos - chaves físicas inseridas nas fechaduras orgânicas.

(...)

Mas os homens constroem diques ou refúgios, localizam o alimento mentor organizam seus grupos sociais ou descobrem seus companheiros sexuais sob a direção de instruções codificadas em diagramas e plantas, na tradição da caça, nos sistemas morais a nos julgamentos estéticos: estruturas conceptuais que moldam talentos amorfos.

(...)

Nossas idéias, nossos valores, nossos atos, até mesmo nossas emoções são, como nosso próprio sistema nervoso, produtos culturais - na verdade, produtos manufaturados a partir de tendências, capacidades a disposições com as quais nascemos, e, não obstante, manufaturados. Chartres é feita de pedra a vidro, mas não é apenas pedra a vidro, é uma catedral, a não somente uma catedral, mas uma catedral particular, construída num tempo particular por certos membros de uma sociedade particular. Para compreender o que isso significa, para perceber o que isso é exatamente, você precisa conhecer mais do que as propriedades genéricas da pedra a do vidro a bem mais do que é comum a todas as catedrais. Você precisa compreender também - e, em minha opinião, da forma mais crítica - os conceitos específicos das relações entre Deus, o homem e a arquitetura que ela incorpora, uma vez que foram eles que governaram a sua criação. Não é diferente com os homens: eles também, até o último deles, são artefatos culturais.

Damatta - O Ritual

Procurei chamar a atenção para o aspecto combinatório do momento que chamamos "ritual". Minha intenção foi a de revelar que os ritos não parecem ser momentos substantivamente diferentes daqueles do mundo cotidiano, mas combinações desses momentos. O clima do ritual é dado não por meio de transformações essenciais do mundo a das relações sociais, mas por meio de manipulações dos elementos a relações desse mundo. Os rituais seriam, pois, modos de salientar aspectos do mundo diário, e procurei estudar três modos básicos de obter tais saliências: reforço, inversão a neutralização. Nesse sentido, este trabalho segue de perto as sugestões de Leach (1954 e, especialmente, 1961 1974), quando indica que o ritual é um aspecto das relações sociais e, mais ainda, que o rito é uma técnica "para a mudança de posição da pessoa moral, do profano para o sagrado, ou do sagrado ao profano" (1974:206). A diferença é que meus três mecanismos são diversos dos de Leach e, creio, minha busca foi a de uma maior articulação entre eles e três outros aspectos das relações sociais (respeito, jocosidade e evitação) que ocorrem no cotidiano.

Roberto Damatta.
EM "Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro".

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