Curso de Midiologia Geral
Debray, R.


Existem ciências em que "os instrumentos são teorias materializadas" (Bachelard). Inúmeras ideologias podem ser lidas como meios de deslocamento teorizados. É a razão pela qual é preciso abordar a história das idéias e dos mitos pela geografia pois um povo tem, antes de tudo, uma cultura (e não somente a diplomacia) de sua geografia, a temporalidade de seu espaço, a inteligência de seu habitat. Quando se examina os fatores do meio que permitiram, por exemplo, o advento do monoteísmo, é preciso dar ao meio sua dimensão física originária. Dir‑se‑á então: do mesmo modo que o politeísmo supõe a proliferação urbana helenística, assim o monoteísmo é a cultura mais bem adaptada ao deserto e à guerra do deserto.

Vocês já sabem que o midiólogo olha para baixo e, sobretudo, quando é preciso explicar o que há de mais elevado. Olha para o chão para compreender o céu, como se as chaves do paraíso estivessem na geologia. Que poderá haver de mais sublime do que a invenção do "Deus Solitário e Único", que maior perfeição do pensamento além da abertura histórica do judaísmo ? É bem legítimo que esta religião sem magia ‑ em que Deus fala ao espírito e não aos olhos, em que, precisamente, o poder mágico de criação é reservado unicamente a Deus ‑ suscite em todos nós uma admiração sem limites. Mas, por duas razões, não posso estar de acordo com o Sr. Jean Bottéro que vê no nascimento de Deus "um dos mais brilhantes e inesperados achados do espírito humano". A primeira tem a ver com "achados" que é melhor do que "descoberta", mas enfim só se acha o que se procurou e nem o povo hebreu teria procurado Javé se já não o tivesse achado. Quero dizer que a experiência monoteísta precedeu a abstração do monoteísmo, que a solução precedeu o problema. É plausível que, longe de optar pelo monoteísmo no termo de uma deliberação espiritual, sopesando os prós e os contras, ele tenha sido adotado porque não teria sido possível proceder de outro modo. Buscar o enraizamento no alto é uma idéia genial, mas se vocês admitem o axioma da incompletude, não ficarão completamente admirados que um povo desenraizado de seu chão, com os pés metidos na areia, reordene‑se em direção às raízes do céu. A segunda razão tem a ver com o "espírito". Estou inclinado a pensar que Deus não está no espírito do homem, mas em suas pernas. Parece‑me que o homem acredita, em primeiro lugar, com seus pés e a cabeça vem em seguida; um Deus itinerante subiu‑lhe à cabeça.

Como explicar que um povo tão pequeno, em número e em poder, tenha conseguido conceber uma tão grande coisa como o Ser supremo e transcendente? Porque recebeu essa Revelação, diz o crente e ponto final. Isso chama‑se uma petição de princípio; é respeitável, mas apenas convence quem já está convencido. O historiador ponderado, livre de qualquer fé preconcebida, responde com o fator tempo. O monoteísmo, diz ele, está associado ao progresso do espírito humano. O monoteísmo, é verdade, não se encontra no começo da história das religiões, mas antes lá para o fim. No entanto, se for preciso pensá‑lo em termos de evolução, os babilônios, que inventaram a astronomia, e os gregos, que inventaram a matemática e a filosofia, deveriam ter inventado também o Deus único. Não eram, intelectualmente, subdesenvolvidos com relação aos hebreus.

Segundo o esquema sobejamente conhecido, o pai da psica­nálise respondeu com a teoria do pai e o assassinato do pai na horda primitiva. No entanto, todos os homens têm um pai e houve muitas sociedades patriarcais na história da humanidade. Se a origem da idéia de Deus está na imagem do pai onipotente, não se explica a razão pela qual a idéia nasceu de preferência aí e não alhures.

Pode‑se também responder, e é a minha resposta pessoal: o homem é um animal religioso enquanto territorial, pois a incompletude estipula que nenhum território se confine em uma dimensão horizontal. Resta a especificar o princípio formal, o invariante lógico da transcendência como operador necessário de confinamento, esclarecendo as variações concretas da "necessidade religiosa". Digamos que os animais domésticos, sedentários, citadinos, não têm as mesmas necessidades de transcendência que seus congêneres nômades, pobres diabos miseráveis, sem casas nem cereais, "bandidos‑vagabundos", pastores ou guerreiros do deserto. Todos os homens têm a experiência do sagrado, mas as via sacra que viabilizam o inefável dependem muito do meio de vida. Formulo aqui a hipótese que o monoteísmo é uma cultura de pobreza associada à itinerância em meio desértico. O móvel fez o nobre, não o inverso. Não estou dizendo de modo algum, entendamo‑nos bem, que o deserto favorece a alucinação e que a Revelação mosaica não passaria de uma miragem elaborada e traduzida em palavras. Estou simplesmente dizendo que o deserto, que despoja do que é acessório, alivia também do peso dos acessórios; que os deuses mesopotâmicos eram pessoas reais bastante incomodativas; e que o Deus único e transcendente é o mais funcional dos artigos de viagem. Gabarito zero. Com o Absoluto sem rosto, vocês poderão viajar bem leves e ir bem longe. Poderão arrumar as trouxas logo ao primeiro sinal de alarme.

Suponho que a diferença pertinente Israel e Babilônia não é a que existe entre pontiagudo e atarracado, genial e ordinário, mas entre móvel e imóvel. O monoteísmo é nômade, mas nem todos os nômades, dir‑me‑ão vocês, são monoteístas. Não estou falando dos depredadores sazonais (como os esquimós, os pigmeus ou os índios caçadores). Também não estou falando do nomadismo pastoral dos pré‑beduínos (tocando seus burros, bois ou cabras em um meio semi‑árido, ou seus rebanhos de renas na tundra, tal como os lapões ou os povos da Sibéria). Estou falando antes do grande nomadismo pastoral agressivo que se desenvolveu em meio francamente árido, não mediterrânico, a partir do 2º milênio a.C., após a domesticação do cavalo e do dromedário. O desequilíbrio recursos/população suscita, então, com a luta pela sobrevida, uma personalidade coletiva já descrita inúmeras vezes, que tem suas incidências religiosas: estado de crise permanente, genealogias patrilineares, predominância dos chefes de guerra e dos valores da virilidade. A vida sedentária separa as unidades familiares fixando‑as ao solo, cria a condição de ricos e pobres por acumulação pontual dos estoques alimentares e, em seguida, dos bens. Em compensação, tudo é comum na comunidade nômade. Um por todos, todos por Um.

O ramo abraâmico (século XVIII‑XVI a.C.) cresceu e floresceu na estepe sírio‑árabe com trinta e cinco graus à sombra. Representado pelos netos de Adão, os filhos não de Caim, cultivador sedentário e fundador das cidades, mas de Abel, o pastor. O nômade, que vive debaixo da tenda, não pode atravancar‑se com altares ou efígies. A cultura do deserto não conhece nem estatuária, nem arquitetura. Como imaginar um Panteão desdobrável e portátil? Como é que um fugitivo poderia carregar os deuses imobiliários do sedentário, todos esses impedimentos que exigiriam meios de transporte que ele não tem e que, se viesse a obter (carroças, etc.), o impediriam de dar o fora facilmente e de sair das trilhas para escapar das perseguições. O iconoclasta vai mais depressa do que o idólatra; não tem nada para transportar. Um fetiche cria uma dependência, tralhas; é um risco. Nestas condições, o monoteísmo é o estorvo teológico mínimo para o máximo de rapidez. O máximo de sentido no mínimo de espaço, fornecido por um Deus cuja imensidão incomensurável permite, precisamente, a miniaturização textual, oferece chances de sobrevida que diminuiriam perigosamente com as pesadas panóplias da superstição. Não esqueçamos a precariedade em que vivem todos os arautos do Deus único, condição comum favorecendo os transvazamentos de um ponto da história a um outro. Abraão saiu de Ur arriscando tudo em circunstâncias muito críticas; Moisés, "esse xeque de beduínos errantes e miseráveis", do Egito. Jesus, de Nazaré; Maomé, de Medina. Todos banidos, sem eira nem beira, e, portanto, na fé e na lei de cada qual, que devem pôr‑se ao fresco e escapar das buscas sob pena de morte. Eis as palavras‑chave do Antigo Testamento: Exílio, Fuga, Êxodo. Portanto, levar o estritamente necessário, o invisível. Com a mais simples apresentação nominativa: Javé, sem vogais, um símbolo. Legislativa: o Decálogo. Litúrgica: uma caixa feita de acácia com 1 metro de comprimento e 70 centímetros de largura, portátil com a ajuda de varas, no centro da coluna em marcha, ou seja, um móvel de grande tenda chamado Arca. O símbolo é mais leve do que o ícone que, por sua vez, o é mais do que o índice (como é o caso da estátua ou o ex‑voto). Ou seja, a logística ideal do acossado. Do perseguido.

Desterritorializado = desmaterializado. Territorializado = emplastrado. O Deus sem carne é o dos proscritos. Os antepassados de Abraão eram idólatras, adoravam o deus "El", ligado a um santuário palestino, o gênio do lugar. O risco para o idólatra é mudar de deus de cada vez que mude de lugar, por cortesia, oportunismo ou pela força. Daí, o processo dos ídolos e o interesse em ter seu próprio deus, um deus para si, que se pegue e leve consigo. O Deus dos profetas é aquele que "acompanha Israel em sua caminhada" e que ameaça desaparecer desde que Israel se detenha ou se instale em algum lugar. Giróvago, caminha à frente e mostra o caminho, tal como uma luz na noite ou uma coluna de fumaça durante o dia. Após a conquista de Canaã, por exemplo, Israel abandona Javé para servir "aos Baales e aos Astarotes" (Juízes 10,ó). Recaída na urbanidade banalmente babilônica, na religião fechada da Cidade antiga, efeito de muralhas, com seus deuses que lutam por ela, com ela. E de que maneira os profetas vão proceder para chamar os sedentarizados à ordem do Deus itinerante, à ordem divina do percurso sem fim? "Reconduzindo‑os ao deserto" para "voltarem a encontrar o élan" (Oséias). Deus é sempre aquele que conduz ao deserto, ou leva para aí os entorpecidos. Bergson dizia em Deux Sources que a função essencial do universo era ser "uma máquina de fazer deuses". O êxodo é uma máquina de desfazer os deuses de pedra e de cores, de dissolvê‑los no puro pensamento do Único.

As grandes viagens são como as guerras. São sempre mais difíceis de terminar do que de começar. Digamos que Israel soube inventar o menos ruim dos fins, a mais imaterial das áreas de aterragem: o culto do texto escrito. O Deuteronômio fez, finalmente, com que a unicidade de Javé viesse a corresponder à unicidade de um lugar de culto, Jerusalém. O Deuteronômio exprime a segunda lei que declina, reduzindo‑o, o primeiro código. Do mesmo modo que o doutor do século VI declina o profeta do século IX que segue a revelação de Moisés. Visões, palavras, escritos. O profeta enuncia a Lei falando pelo Outro; o doutor interpreta o texto da Lei. Profeta, pregação, codificação. Do profeta ao letrado, passando pelo mestre, a mediação se solidifica, se torna espessa, mas da espessura de um rolo da Tora, ainda bastante delgada para que 0 Espírito sopre sobre ela e a eleve, mas já bastante espessa para exigir uma exegese.

Para que não sejamos acusados, prematuramente, de "reduzir o superior ao inferior", indiquemos com precisão, uma vez mais, que a noção de meio prescreve as causalidades mecânicas, lineares. Uma espécie não se deduz de um meio e é evidente que nem todos os grandes nômades se tornam monoteístas. O deserto não engendra automaticamente 0 monoteísmo: é 0 terreno mais favorável para sua eclosão. A condição que 0 torna possível, não necessário. É assim que estas considerações midiológicas não poderiam diminuir os méritos da fabulosa invenção: um deus portátil.

Da mesma forma 0 principio ‑ "uma espécie, um nicho" ‑não significa que a espécie não possa se conservar, nem seduzir fora do nicho. Os meios de pensamento passam, o pensamento permanece. Já não vivemos debaixo da tenda, mas tornamo‑nos realmente os posseiros do Deus de Abraão e de Jacó. Também a matemática deixou, sem prejuízo, o pequeno cantão grego. Deus resistiu à sedentarização e ao automóvel, 0 cenário à mudança da decoração que inspirou e favoreceu sua concepção. Com efeito, as idéias não são charruas; além disso, se uma produção simbólica se reduzisse a uma infra‑estrutura material, deixaríamos de poder compreender a Bíblia, de ler Santo Agostinho com proveito e de olhar com emoção uma estátua de Michelangelo. Lembrem‑se das "duas histórias em uma" que eu evocava no início deste curso. O fruto intelectual de um meio técnico obsoleto não desaparece com ele. Passa da segunda à primeira história. Felizmente, para nós, não há progresso na história da arte, da religião e do vínculo político. É realmente a razão pela qual há uma cultura humana e uma só, assim como a humanidade continua a ser única através de todas as populações humanas.