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TÉCNICA

VIDE Heidegger - técnica e correlatos

Técnica e tecnologia são dois termos que estranhamente intercambiaram suas noções desde o século XVIII. A tecnologia, que originalmente se referia ao “discurso da técnica”, veio indicar a técnica propriamente dita, enquanto esta última veio a se ocupar do discurso sobre ela mesma. Embora, hoje em dia, se use ainda muito o termo técnica, afinado com a noção original de arte, de savoir-faire ou de “fazimento”. E, é justamente a técnica sob esta noção de “fazimento”, como denominou Darcy Ribeiro os fazeres indígenas, que nos interessa em nossa reflexão.

Por sua vez, artefato, dispositivo, instrumento, ferramenta, utensílio passou a ser designado pomposamente como tecnologia, talvez porque cada vez mais em qualquer um deles se reunia não apenas uma técnica, ou o substratum de um fazimento, mas diferentes técnicas, em uma espécie de coalescência que assim dava forma concreta a um “discurso da técnica”.

Esta situação é muito bem formulada por François Sigaut, ao discutir a diferença entre “técnica” e “tecnologia”, no prefácio de um livro de ensaios do etnólogo André-Georges Haudricourt:

Se os dois termos podem ser tomados um pelo outro, é porque qualquer um dos dois não tem um sentido bem preciso para nossos contemporâneos. Porque, contrariamente a uma opinião bastante corrente, nossa vida quotidiana é cada vez menos marcada, menos formada e menos estruturada pela técnica. A técnica supõe o contato direto do homem com a natureza, com a matéria. Ora, as máquinas nos dispensam ou nos privam mais e mais deste contato, sem que o ensino geral (do qual as técnicas são excluídas) aporte qualquer compensação. O que cria esta ilusão, é que o capital de saber técnico acumulado em nossa sociedade é hoje em dia infinitamente maior do que jamais foi. Mas a parte de cada um de nós neste capital jamais foi tão desprezível. (apud Séris, 1994, p. 4)



A técnica não é igual à essência da técnica. Quando procuramos a essência de uma árvore, temos de nos aperceber de que aquilo que rege toda árvore, como árvore, não é, em si mesmo, uma árvore que se pudesse encontrar entre as árvores.

Assim também a essência da técnica não é, de forma alguma, nada de técnico. Por isso nunca faremos a experiência de nosso relacionamento com a essência da técnica enquanto concebermos e lidarmos apenas com o que é técnico, enquanto a ele nos moldarmos ou dele nos afastarmos. Haveremos sempre de ficar presos, sem liberdade, à técnica tanto na sua afirmação como na sua negação apaixonada. A maneira mais teimosa, porém, de nos entregarmos à técnica é considerá-la neutra, pois essa concepção, que hoje goza de um favor especial, nos torna inteiramente cegos para a essência da técnica. (A Questão da Técnica, Ensaios e Conferências, 1954/2002, p. 10)


Antoine Picon

  • "...aquilo que transforma incansavelmente o mundo e o homem, a fim de adaptá-los um ao outro". (O Império das Técnicas, pag 25)


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