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REDE


Em 1832, Michel Chevalier (1806-1879), seguidor de Saint-Simon, propõe, dentro das idéias de seu mestre, um programa de ação sob o título sugestivo: “O Sistema do Mediterrâneo”, onde deixa claro a importância das ferrovias na construção do que denomina Associação Universal. Para ele, as ferrovias multiplicarão as relações entre pessoas e cidades, se constituindo assim no “símbolo mais que perfeito da associação universal. As ferrovias modificarão as condições da existência humana.”

Na quarta parte deste mesmo artigo, publicado no jornal oficial dos saint-simonianos, Le Globe, Chevalier adverte: “A industria, abstração feita dos industriais, se compõe de centros de produção unidos entre eles por uma ligação relativamente material, quer dizer por vias de transporte, e por uma ligação relativamente espiritual, quer dizer por bancos... Existem ligações tão estreitas entre a rede de bancos e a rede de linhas de transporte, que um dos dois sendo traçado com a configuração mais conveniente para melhor exploração do globo, a outra se acha por isto mesmo igualmente determinada em seus elementos essenciais.”

Em 1858, outro seguidor de Saint-Simon, Barthélemy-Prosper Enfantin (1796-1864), também resume a ação dos saint-simonianos nos seguintes termos: “Nós enlaçamos o globo terrestre com nossas redes de ferrovias, de ouro, de prata, de eletricidade! Expandam, propaguem, por estas novas vias das quais sois os criadores e os mestres, o espirito de Deus, a educação do gênero humano.”

Essa ideologia, no próprio berço da constituição das modernas redes de circulação, prega a eficácia das redes na constituição de um novo mundo, e, desde então, parece arregimentar seguidores e entusiastas. Como se pode ver através da imagem difundida em um reconhecido tratado de geografia do início do século: “O globo terrestre constitui hoje em dia um vasto organismo cujas partes são solidárias; toda modificação em uma destas partes ressoa sobre o conjunto das outras: é o efeito das vias de comunicação; seu desenvolvimento talvez seja o traço característico da época contemporânea.” (Fallex & Mairey, 1906, pg. 586)

Como demonstram todas estas citações, retiradas da obra de Pierre Musso (1997) e de Armand Mattelart (1997), a gênese da noção moderna de rede se inscreve, em grande parte, na própria evolução das tecnologias de circulação e de comunicação, ou seja, no desenvolvimento das técnicas de transporte, ou melhor, de transmissão, constituindo caminhos tangíveis, como as ferrovias, ou intangíveis, como as ondas hertzianas. Podemos até mesmo arriscar dizer que a noção moderna de rede é consubstancial à noção moderna de transmissão como nos demonstra Regis Debray (1997).

Para Debray, “transmitir é organizar, portanto fazer território: solidificar um conjunto, traçar fronteiras, defender e expulsar”. A “transmissão” é assim um termo regulador e ordenado, em razão de um “tripé”, material, diacrônico e político, sobre a qual se fundamenta. Material, na medida que “comunicar”, no sentido de fazer conhecer, ou de “pôr em comum”, se liga ao imaterial, aos códigos, à linguagem. Enquanto, “transmitir”, se referindo tanto a idéias quanto a bens, “forças como formas”, convoca e mobiliza engenhos e pessoas, veículos e lugares, obrigatoriamente em rede.

Diacrônico, pelo fato que “a comunicação é essencialmente um transporte no espaço, enquanto a transmissão é essencialmente um transporte no tempo”. A primeira é pontual e sincronizante, formando uma trama de agentes contemporâneos, ao passo que a segunda é diacrônica e “caminhante”, sendo além de uma trama em rede, um drama, religando elementos em diferentes momentos de uma cultura, em distintas temporalidades, ou em culturas diversas. Político, dado que os homens se comunicam dentro de um horizonte individualista, onde a máquina pode até assumir o papel de agente. A transmissão, por outro lado, adiciona ao processo de comunicação um sentido, uma configuração humana que se sobrepõe ao suporte técnico. A rede de transmissão imuniza assim um organismo coletivo a desordem e a agressão.

A rede se apresenta e se realiza, desta forma, como uma estrutura artificial de conquista e de gestão do espaço e do tempo, sobre a qual a transmissão ordena através de métodos colegiais e quadros coletivos. Em outros termos, a rede “re-produz” o território de uma civilização, pela transmissão que ela operacionaliza. Ela assim perfaz um tipo de desdobramento do território. Como um artefato sobreposto a um território, a rede pratica uma espécie de anamorfose do território. Podemos até mesmo parafrasear a formulação de Pierre Lévy (1997) sobre o “virtual”, dizendo que a rede virtualiza o território, na medida que a rede permite repotencializar o espaço geográfico, elevando-o a sua virtualidade, ou a uma modalidade tal, a partir da qual ele é capaz de ser então atualizado, segundo novas problemáticas, alinhadas, por sua vez, segundo os interesses os mais diversos.

Esta mesma noção de rede, constituída enquanto estrutura de domínio espaço-temporal, ora se apresenta como malha de apropriação de um discurso textual, pela aplicação da técnica de hipertexto. Os nós ou hyperlinks sejam títulos, parágrafos, frases ou termos do texto, são aquelas novas amarrações dadas ao texto, selecionadas segundo critérios de interpretação do texto e de associação do mesmo com seu contexto original ou atual. As diferentes narrativas que se estabelecem pelos percursos destes nós atuam como novas formas de inteligibilidade e compreensão do texto, engendrando possivelmente novos discursos a partir do discurso original.


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