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MEIO


VIDE: ALGUNS ENSAIOS SOBRE A NOÇÃO DE MEIO


A Noção de Meio

Que noção podemos apreender de um termo que, em si mesmo, consegue indicar, em diferentes idiomas de origem latina, as ideias de centro, entorno e intermediação, entre outras tantas na língua portuguesa. Apenas tomando estas acepções básicas, poderíamos afirmar, sem qualquer ironia, que estamos lidando com um termo que se refere a tudo e todas as coisas...

Neste sentido, talvez um termo forte candidato à categoria de conceito transversal, conforme proposta por Yves Barel (1989), em seu ensaio sobre o que denominou transversalidade, ou como ele mesmo sugere um conceito perfeitamente marcado pelo logo Z de Zorro.

Como podemos facilmente perceber, compondo este Z, da forma que o personagem Zorro geralmente o aplicava ao uniforme do sargento Garcia, vemos que ele se mostra construído por dois eixos paralelos religados por uma barra oblíqua, “fazendo reencontrar o que não pode se reencontrar”. Para Barel, a barra oblíqua do Z, enquanto passagem de uma paralela a outra, é uma metáfora do transito de conceitos entre disciplinas.

Enquanto passagem, movimento avante, continuidade, o conceito transversal não é nem o conceito imobilizado em um lugar preciso de uma disciplina, nem o conceito imperial, presente em todos os lugares, o conceito almejado pela proposta de inter ou de transdisciplinaridade.

Para Barel, o conceito transversal é um conceito andarilho, no interior como no exterior de uma disciplina qualquer. Muda as passagens, os caminhos, nos quais se desloca, e sem dúvida ele próprio muda com elas, sem, no entanto, perder sua identidade. Os conceitos andarilhos assumem assim uma função de junção e superposição do específico e do universal. A andança é ocasião para anamorfoses ou isomorfismos do conceito.

Conceitos transversais, como aqueles indicados pelo termo meio, se fixam em um momento dado, em uma disciplina, como neste caso, na biologia e na geografia, por exemplo. Adquirem a coloração local, a exemplo de um camaleão, ao mesmo tempo que fazem da disciplina sua passagem, seu trânsito, ou seja, assumem neste percurso “um fixo em um fluxo”.

Um conceito transversal de alta qualidade, realiza o equilíbrio entre fixação e fluidez, parada local e movimento geral, se imobilizando para se fazer conceito, ganhando rigor (sem vir a ser um rigor mortis), e retomando seu caminho, para justamente entrar no exercício da transversalidade.

A transversalidade do termo meio, e de suas diferentes noções, indica que se trata de um termo que se define na e pela indefinição de suas “passagens”, de suas trajetórias. A indefinição não deve ser entendida como a ausência de definição, mas sim como a multiplicidade de definições em constante transformação interna. Constata-se assim uma ocorrência estranha, onde a definição e a transgressão da definição coabitam, sem se destruírem mutuamente.

Nessa situação, o mesmo termo, a mesma expressão, a mesma frase, parecem falar de algo preciso, ao menos relativamente, e portanto, disseminam sentidos sobre um amplo território de conhecimento, de difícil mapeamento.

Na hierarquia de produtos do espírito humano, por ordem de rigor crescente, um conceito se situa bem alto: representa algo de delimitado, preciso, consistente, de claro, quanto ao recorte que efetua na realidade, se dotando logo, ele mesmo, de fronteiras identificáveis sem qualquer equívoco.

O conceito ao adquirir a propriedade de transversalidade, perde uma grande parte de suas qualidades de conceito: põe um pé no reino da indefinição, esquece seus limites, perde sua precisão, em aparência ou de fato, se torna, em parte, seu próprio contrário, ainda que permanecendo ele mesmo.

Essa coincidentia oppositorum, que tão bem qualifica a realidade, segundo os alquimistas de outrora, se oferece ao exame do espírito, através do conceito transversal. No caso do termo meio, ou melhor da díade ser-meio, temos um perfeito recurso de retórica, ou como se costuma denominar, um oximoro, facilmente compreensível através de uma imagem grosseira: o verme está no fruto e o fruto está no verme...

A transversalidade resgata, de uma certa maneira, o bom e velho método analógico, tão apreciado entre os antigos pensadores, e posteriormente desprezado pelos puristas da ciência moderna, como um instrumento perigoso, sujeito a eventuais abusos. Analogia e metáfora são na verdade temas relevantes da prática da transversalidade, pois esta segue um procedimento analógico, por vezes metafórico.

O termo meio, enquanto oximoro, estabelece uma rede sistemática de noções metafóricas que permite abarcar aspectos diferentes, e até opostos, de um mesmo recorte da realidade, mascarando necessariamente outros aspectos. Ganha concretude a dicotomia básica e original entre o Mesmo e o Outro, ao compreendermos nossa experiência em termos de objetos e substâncias espacializadas, e portanto, capazes de ter um centro, um entorno e uma mediação.

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