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INSTRUMENTO

VIDE técnica

Heidegger considera as interpretações da técnica, instrumental (meio para um fim) e antropológica (atividade humana), corretas, mas aquém da verdade, especialmente no tocante à técnica moderna. A técnica artesanal do passado não pode se comparar a uma técnica industrial, e certamente muito menos à técnica informacional-comunicacional.

A determinação instrumental sendo correta, se aplica também à técnica moderna, por mais que se argumente quanto às diferenças entre a técnica artesanal e a técnica industrial. Sendo correta, ela se presta muito bem a orientar o relacionamento justo com a técnica e assim estimular sua adoção disciplinada. Vale aí o lema: "manusear com espírito a técnica de maneira a dominá-la, evitando que escape ao controle do homem”.

Mas, como questiona Heidegger, se a técnica não for um simples meio, se ela não for apenas um instrumento? Como então cogitar em domesticá-la? Embora exata, a concepção instrumental da técnica revela algo de sua essência, no sentido que expressa uma faceta de sua natureza, uma verdade sobre a técnica.

Só a verdade pode estabelecer uma relação livre com aquilo que se remete a partir de sua própria essência, como lembra Heidegger. Mas para chegar à essência é preciso defrontar-se com a aparência, com esta concepção instrumental, investigando seu caráter próprio, e as conotações de meio e fim que acompanham esta concepção.



O ser do Dasein “ex-siste” no mundo. Pois o ser está em exílio, fora de si mesmo, sem abrigo, pro-jetado. Busca habitar e acaba por criar um mundo no qual se re-encontra no Dasein e na manualidade (Zuhandenheit). Evidenciando que “a doação dos desempenhos e das possibilidades de desempenho proporciona os seres à mão, os seres constituídos pela manualidade: os instrumentos, os utensílios, os equipamentos, os dispositivos etc.” (Notas em Heidegger, 1986/1998).

Essa manualidade composta por instrumentos, utensílios, ferramentas, que os gregos denominavam pragmata é que põe em evidência o aspecto prático, da apreensão das coisas na ocupação. A primeira abertura do Dasein ao mundo se dá por esta ocupação constitutiva de um mundo da manualidade, onde a “cura” exerce uma “função de apresentação” fundamental (Heidegger, 1979/1985).

Obedecendo a característica manual de qualquer instrumento, é a mão que ativa e mantém operacional a informática diante do homem, o que indica uma espécie de “manualidade informacional”: uma relação especial entre Dasein e instrumentos do engenho de representação, que é dada pelo método informacional-comunicacional. Qualquer tecnologia da informação conta com o Dasein que o “anima” e manipula; mesmo que o faça segundo o método de aplicação e os requisitos de operação e de uso, imanentes ao meio de onde a tecnologia emerge à mão.

O ser do instrumento na ocupação se dá como um “servir para”, onde o para não indica apenas funcionalidade, mas remetimento de um instrumento a outro. Esta interdependência dos instrumentos entre eles mostra que um instrumento único é uma incongruência ontológica. O ser do instrumento se caracteriza na dupla referência ao Dasein, do qual depende ontologicamente, e aos outros instrumentos que formam seu “mundo circundante”, seu meio. Do mesmo modo que aquilo que é tecnologia da informação se caracteriza na dupla referência ao homem que a manipula e ao meio técnico-científico-informacional, de onde emerge.


  • "Designamos o ente que vem ao encontro na ocupação com o termo instrumento (Zeug)". (Ser e Tempo, pag. 109)

  • “Rigorosamente, um instrumento nunca ‘é’. O instrumento só pode ser o que é num todo instrumental que sempre pertence a seu ser” (Heidegger, 1986/1998, pág. 110).


Gilbert Simondon


“O século XVIII foi o grande momento do desenvolvimento das ferramentas e dos instrumentos, se se entende por ferramenta o objeto técnico que permite prolongar e armar o corpo para realizar um gesto, e por instrumento o objeto técnico que permite prolongar e adaptar o corpo para obter uma melhor percepção; o instrumento é a ferramenta da percepção.” SIMONDON, G. (1969), Du Mode d’Existence des Objets Techniques. Paris, Aubier, p. 114

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