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DISCURSO

Notions Philosophiques

  • Na filosofia clássica "operação intelectual que se efetua por uma seqüência de operações elementares e sucessivas". Um conhecimento discursivo se opõe a um conhecimento intuitivo ou imediato. Pode-se logo assimilar discursivo a racional e discurso a razão. Discurso é a tradução corrente admitida para o termo logos. A lógica é a ciência reflexiva do discurso. O discurso é portanto uma seqüência ordenada de enunciados dos quais cada um tira seu valor daqueles que o precederam e donde é a conclusão. Um discurso verdadeiro tem sua verdade de sua coerência mas também da evidência de seu ponto de partida. Do mesmo modo o discurso matemático não pode evitar de partir de axiomas ou decisões sem jamais se revelar capaz de demonstrá-las.

  • (Em Saussure) o discurso é assim percebido como um terceiro termo, entre a língua e a linguagem, tendo uma função de subversão das dicotomias. Pode-se presumir a mesma posição do discurso em face das dicotomias de sistema e processo (em Hjelmslev) e de competência e desempenho (em Chomsky). Em breve, o discurso é qualificável como sendo objeto de uma teoria lingüística e como gramaticalmente estruturado? Os estruturalistas não aportaram respostas. Na maior parte dos casos, o discurso é identificado com a linguagem, ou simplesmente, com a manifestação (em superfície) da língua; o lingüista Martinet chega a dizer... que o discurso nada tem que não se encontre na frase.

  • Permanece assim esta incerteza a respeito do estatuto epistemológico do discurso. Lembremos a tensão entre as noções de discurso e de texto. De cara, deve-se notar que o discurso é ao mesmo tempo o ato e o resultado deste ato, A ação de produção verbal e o resultado concreto, visível ou audível. A seguir e adicionando-se a esta primeira ambigüidade, um discurso é um enunciado que tem propriedade textuais mas é ao mesmo tempo uma atividade que deve ser caracterizada a partir de certas condições de produção contextualizadas. O discurso, conseqüentemente, é um « texto contextualizado ». (LES NOTIONS PHILOLOSOPHIQUES, 1990, pg 665, trad. João Cardoso)


Olavo de Carvalho


As quatro ciências do discurso tratam de quatro maneiras pelas quais o homem pode, pela palavra, influenciar a mente de outro homem (ou a sua própria). As quatro modalidades de discurso caracterizam-se por seus respectivos níveis de credibilidade:

(a) O discurso poético versa sobre o possível (dinatos), dirigindo se sobretudo à imaginação, que capta aquilo que ela mesma presume (eikástikos, "presumível"; eikasia, "imagem", "representação") .

(b) O discurso retórico tem por objeto o verossímil (pithános) e por meta a produção de uma crença firme (pistis) que supõe, para além da mera presunção imaginativa, a anuência da vontade; e o homem influencia a vontade de um outro homem por meio da persuasão (peitho), que é uma ação psicológica fundada nas crenças comuns. Se a poesia tinha como resultado uma impressão, o discurso retórico deve produzir uma decisão, mostrando que ela é a mais adequada ou conveniente dentro de um determinado quadro de crenças admitidas.

(c) O discurso dialético, já não se limita a sugerir ou impor uma crença, mas submete as crenças à prova, mediante ensaios e tentativas de traspassá-las por objeções. É o pensamento que vai e vem, por vias transversas, buscando a verdade entre os erros e o erro entre as verdades (diá = "através de" e indica também duplicidade, divisão). Por isto a dialética é também chamada peirástica, da raiz peirá (= "prova", "experiência", de onde vêm peirasmos, "tentação", e as nossas palavras empiria, empirismo, experiencia etc., mas também, através de peirates, "pirata": o símbolo mesmo da vida aventureira, da viagem sem rumo predeterminado). O discurso dialético mede enfim, por ensaios e erros, a probabilidade maior ou menor de uma crença ou tese, não segundo sua mera concordância com as crenças comuns, mas segundo as experiências superiores da racionalidade e da informação acurada.

(d) O discurso lógico ou analítico, finalmente, partindo sempre de premissas admitidas como indiscutivelmente certas, chega, pelo encadeamento silogístico, à demonstração certa (apodeixis, "prova indestrutível") da veracidade das conclusões.

E visível que há aí uma escala de credibilidade crescente: do possível subimos ao verossímil, deste para o provável e finalmente para o certo ou verdadeiro. As palavras mesmas usadas por Aristóteles para caracterizar os objetivos de cada discurso evidenciam essa gradação: há, portanto, entre os quatro discursos, menos uma diferença de natureza que de grau.

Possibilidade , verossimilhança, probabilidade razoável e certeza apodítica são pois, os conceitos-chave sobre os quais se erguem as quatro ciências respectivas: a Poética estuda os meios pelos quais o discurso poético abre à imaginação o reino do possível; a Retórica, os meios pelos quais o discurso retórico induz a vontade do ouvinte a admitir uma crença; a Dialética, aqueles pelos quais o discurso dialético averigua a razoabilidade das crenças admitidas, e, finalmente, a Lógica ou Analítica estuda os meios da demonstração apodíctica, ou certeza científica. Ora, aí os quatro conceitos básicos são relativos uns ao outros: não se concebe o verossímil fora do possível, nem este sem confronto com o razoável, e assim por diante. A conseqüência disto é tão óbvia que chega a ser espantoso que quase ninguém a tenha percebido: as quatro ciências são inseparáveis; tomadas isoladamente, não fazem nenhum sentido. O que as define e diferencia não são quatro conjuntos isoláveis de caracteres formais, porém quatro possíveis atitudes humanas ante o discurso, quatro, motivos humanos para falar e ouvir: o homem discursa para abrir a imaginação à imensidade do possível, para tomar alguma resolução prática, para examinar criticamente a base das crenças que fundamentam suas resoluções, ou para explorar as conseqüências e prolongamentos de juízos já admitidos como absolutamente verdadeiros, construindo com eles o edifício do saber científico. Um discurso é lógico ou dialético, poético ou retórico, não em si mesmo e por sua mera estrutura interna, mas pelo objetivo a que tende em seu conjunto, pelo propósito humano que visa a realizar. Daí que os quatro sejam distinguíveis, mas não isoláveis: cada um deles só é o que é quando considerado no contexto da cultura, como expressão de intuitos humanos. A idéia moderna de delimitar uma linguagem "poética em si" ou "lógica em si" pareceria aos olhos de Aristóteles uma substancialização absurda, pior ainda: uma coisificação alienante.

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