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NATUREZA DA TIC


Em outros ensaios exploramos a natureza da TIC (vide Sobre a essência da informática), em especial do computador, enquanto “engenho de representação”. Começamos pela reflexão de Heidegger, em seu ensaio “A época das concepções do mundo” (1949/1962, pág. 99-146), para desdobrar nossa investigação sobre a essência da informática, concluindo que esta resume em si a própria metafísica dos Tempos Modernos, fundada na “representação”. Em síntese nossa argumentação inicial segue os seguintes pontos retirados do ensaio de Heidegger:

  • Primeiro, sua longa meditação sobre a essência da Modernidade, ou dos Tempos Modernos, a partir do questionamento a respeito da “concepção moderna do mundo”; meditação esta que tem por partida a convicção que a metafísica funda uma era ao meditar sobre a essência de um ente, estabelecendo uma interpretação determinada do ser e do ente, e, ao mesmo tempo, ao decidir por uma acepção da verdade, fixando o modo pelo qual ela advém.
  • Segundo, sua constatação que a metafísica dos Tempos Modernos, imanente à concepção moderna de mundo, distingue-se daquela que sustentava a concepção medieval de mundo e a concepção antiga de mundo, na medida em que, nestas últimas, o homem não representa o mundo, ou melhor, não fazia o mundo se apresentar diante de si por meio de uma representação, princípio dominante na metafísica da Modernidade.
  • Terceiro, entendendo representação como uma espécie de imagem do mundo, reproduzida na imaginação do homem a partir da percepção, Heidegger conclui que só a partir do final da Renascença se constitui efetivamente este tipo de representação do mundo a partir da percepção subjetiva, fazendo do sujeito um absoluto e do mundo um espetáculo separado.


Continuando nossa investigação, sobre a TIC enquanto engenho de representação, a partir dessas argumentações de Heidegger, consideramos a situação extrema em que sobre este engenho se estaria configurando um "sintetizador de ilusões informacionais-comunicacionais” com as propriedades e a funcionalidade necessárias para “abrigar” as demandas “informacionais-comunicacionais” do homem moderno. Entendendo "ilusões” como fantasmagorias de atos e de fatos reais.

Em termos bem concretos, na aplicação do engenho em um processo de informatização, vemos despontar o “modelo informacional-comunicacional digital” como paradigma na construção da representação de um ato ou de um fato real. Como um elemento fundamental deste novo “Discurso do Método”, este modelo informacional-comunicacional, exógeno à qualquer disciplina que dele faça uso, determina uma única forma digital para a representação de um ato ou fato.

Esse modelo informacional-comunicacional, que define a forma digital de representação de um ato ou fato, ou seja, o que o engenho irá doravante pro-por e dis-por, é, segundo alguns autores, uma “metáfora” do ato ou fato visado. Ao se preencher este modelo, ao se compô-lo segundo os dados simbólicos que determina como referências as propriedades de qualquer ato ou fato, sobre o qual se dirige um olhar objetivante, já se está dando partida a uma sequência de traduções que transformam sucessivamente um modelo em outro, uma metáfora em outra. Razão pela qual, estudiosos do processo cognitivo dão a este processo a denominação de “transformação metafórica” (por exemplo, George Lakoff).

As funções de programação reunidas em programas de computador, disponíveis no engenho como instrumentos computacionais, conferem as condições de possibilidade, que assim processam a última transformação metafórica do modelo informacional-comunicacional digital, em modelo virtual do fenômeno. Modelo virtual capaz de ser doravante “manipulado” de modo interativo, por interfaces gráficas e linguagens icônicas, no espaço delimitado do monitor (vídeo) de um micro.

Sobre esse modelo virtual de atos e de fatos, é possível se aplicar todas as funções de manipulação, de análise e de simulação, de construção e de apresentação de todo o gênero, sejam em forma de textos, tabelas, gráficos, figuras, imagens, etc. que descrevem em modo digital estes atos e fatos. As funções disponíveis no engenho de representação regem a interação homem-TIC, assumindo o papel de sujeito unificador e deixando o usuário como mero espectador, aparentemente ativo pelo simples fato de “comandar” o engenho.

O cálculo desempenhado pelo engenho, como re-presentação, reproduz em um modo virtual, atos e fatos humanos, tornando-os além de fictícios, manipuláveis. Estas imagens são “ficções calculadas” (como afirma Heidegger) e como tal são antecipações construídas sem referência integral a qualquer aspecto pré-dado, pois seria impossível açambarcar todas as referências necessárias à conjuntura dos atos e fatos. O cálculo, portanto, revoluciona o estatuto de um ato ou fato, que deixa de ser o que é para se tornar virtual, segundo uma representação de algoritmos sobre dados simbólicos.

É interessante notar que, para alguns teóricos do engenho deveria se instalar pela interface oferecida pelo engenho, uma interação de co-responsabilidade complexa com o usuário do engenho. Ou seja, seria necessário nesta interação, um nível de competência equivalente entre as partes envolvidas, usuário e engenho, para se acompanhar e controlar o conjunto de transformações metafóricas entre: modelos mentais, na cabeça da pessoa; modelos informacionais-comunicacionais digitais, enquanto programas e base digital de dados; e, modelos virtuais, apresentados na interface homem-máquina.

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